ORFEU SPAM APOSTILAS

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A Conceição - Tomás Antônio Gonzaga

Canto III

[Queixa de Vênus]

Eu quero ver este navio

(continua a dizer) naquelas pedras

em vingança quebrado. Aqueles homens

ao meu favor ingratos se atreveram

a voltarem as costas aos prazeres

que eu mesma lhes buscava. Que mais queres

ouvir da minha boca? Sou divina,

estou queixosa deles. Este agravo

pede a justa vingança, e isto basta.

(...)

 

 

[Proteção de Palas contra o Nume do Porto]

Corre à popa da nau a grande Palas:

Põe os olhos acesos na corrente;

A corrente parou, no mesmo instante.

O leme levantando cai e torna

Ao primeiro lugar aonde estava.

O navio do sítio se retira,

Dá fundo noutro sítio mais seguro,

De mais fundo, e mais limpo, e desta sorte

Deste segundo risco enfim se salva.

(...)

 

Canto IV

 

Netuno o sacrifício não aceita,

Que Vênus enfadada é como filha

E a quantos animais beber puderam

Das águas com o vinho borrifadas,

Para o ódio mostrar tirou as vidas.

Não pára nisto a força do seu ódio.

Ele leva o navio sobre a costa

Da Ilha de São Lourenço, aonde espera

Que o dano não evite; pois corre

Sem que saiba que corre, e sem que possa

Prever, e acautelar tão certo risco.

 

Canto IV

 

[Fala de Vênus]

Aquele é o navio em que navegam

Os loucos portugueses que me ultrajam

Despica, os mansos ares, que lhe rompam

As velas desrinzadas; move as ondas,

Que açoitem seu costado. Veja o mundo,

Que se tem atrevidos que me insultem,

Eu tenho também ondas, e mais ventos,

Que vinguem meus ultrajes, terei ainda

Os ministros do Céu, que são raios.

(...)

[Adamastor impotente]

Os Lusos navegantes atravessaram

O cabo Tormentoso, e quem diria

Que houveram de passar com mansos mares

Um sítio, a quem chamaram tormentoso

À triste custa de desgraças tantas.

Aqui se aprontam todos para verem

O deforme gigante, que pôs medo

Ao mesmo ousado Gama: porém ele

Só de longe aparece, e levantando

Sobre o sereno mar o corpo imenso

Em profético som assim lhes fala:

O que eu fazer não pude farão outros,

Que eu tenho quem despique o meu ultraje.

(...)

 

[Palas acende um fogueira e evita um naufrágio]

A protetora Palas, que vigia

Sobre os amados Lusos, não sossega.

A ilha vai buscar, e sobre a praia

Acende uma fogueira. Os navegantes,

Mal este fogo avistam, estremecem.

Conhecem que estão perto desta praia.

Arreiam prontamente as soltas gáveas,

Com que só navegavam, e conservam

Todo o resto da noite a nau à capa.

Com esta prevenção prudente, e justa

Apesar dos desejos de Netuno

Do naufrágio iminente a nau se salva.

 

(Apostila 11 de Arcadismo Brasileiro)