ORFEU SPAM APOSTILAS

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Tomás António Gonzaga (1744-1810) nasceu no Porto, filho de pai brasileiro. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, foi juiz em Beja, ouvidor em Vila Rica, Minas Gerais, e desembargador na Baía. Acusado de participar na revolta de Tiradentes, foi desterrado em 1792 para Moçambique onde veio a falecer. Escreveu várias composições amorosas, a que chamou liras, quase todas dedicadas a Marília, a sua noiva D. Maria Doroteia Joaquina de Seixas, que foram publicadas sob o título Marília de Dirceu.

 

Marília de Dirceu

Tomaz Antonio Gonzaga

 

PARTE I

Lira I

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,

Que viva de guardar alheio gado;

De tosco trato, d’ expressões grosseiro,

Dos frios gelos, e dos sóis queimado.

Tenho próprio casal, e nele assisto;

Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;

Das brancas ovelhinhas tiro o leite,

E mais as finas lãs, de que me visto.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

Eu vi o meu semblante numa fonte,

Dos anos inda não está cortado:

Os pastores, que habitam este monte,

Com tal destreza toco a sanfoninha,

Que inveja até me tem o próprio Alceste:

Ao som dela concerto a voz celeste;

Nem canto letra, que não seja minha,

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

Mas tendo tantos dotes da ventura,

Só apreço lhes dou, gentil Pastora,

Depois que teu afeto me segura,

Que queres do que tenho ser senhora.

É bom, minha Marília, é bom ser dono

De um rebanho, que cubra monte, e prado;

Porém, gentil Pastora, o teu agrado

Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

Os teus olhos espalham luz divina,

A quem a luz do Sol em vão se atreve:

Papoula, ou rosa delicada, e fina,

Te cobre as faces, que são cor de neve.

Os teus cabelos são uns fios d’ouro;

Teu lindo corpo bálsamos vapora.

Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora,

Para glória de Amor igual tesouro.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

Leve-me a sementeira muito embora

O rio sobre os campos levantado:

Acabe, acabe a peste matadora,

Sem deixar uma rês, o nédio gado.

Já destes bens, Marília, não preciso:

Nem me cega a paixão, que o mundo arrasta;

Para viver feliz, Marília, basta

Que os olhos movas, e me dês um riso.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

Irás a divertir-te na floresta,

Sustentada, Marília, no meu braço;

Ali descansarei a quente sesta,

Dormindo um leve sono em teu regaço:

Enquanto a luta jogam os Pastores,

E emparelhados correm nas campinas,

Toucarei teus cabelos de boninas,

Nos troncos gravarei os teus louvores.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

Depois de nos ferir a mão da morte,

Ou seja neste monte, ou noutra serra,

Nossos corpos terão, terão a sorte

De consumir os dois a mesma terra.

Na campa, rodeada de ciprestes,

Lerão estas palavras os Pastores:

“Quem quiser ser feliz nos seus amores,

Siga os exemplos, que nos deram estes.”

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

Lira XXIII

Num sítio ameno

Cheio de rosas,

De brancos lírios,

Murtas viçosas;

 

Dos seus amores

Na companhia

Dirceu passava

Alegre o dia.

 

Em tom de graça

Ao terno amante

Manda Marília

Que toque, e cante.

 

Pega na lira,

Sem que a tempere,

A voz levanta,

E as cordas fere.

 

C’os doces pontos

A mão atina,

E a voz iguala

À voz divina.

 

Ela, que teve

De rir-se a idéia,

Nem move os olhos

De assombro cheia:

 

Então cupido

Aparecendo,

À Bela fala

Assim dizendo:

 

“Do teu amado

“A lira fias,

“Só porque dele

“Zombando rias?

 

“Quando num peito

“Assento faço,

“Do peito subo

“À língua, e braço.

 

“Nem creias que outro

“Estilo tome,

“Sendo eu o mestre,

“A ação teu nome.”

 

Lira XXXIII

Pega na lira sonora,

Pega, meu caro Glauceste;

E ferindo as cordas de ouro,

Mostra aos rústicos Pastores

A formosura celeste

De Marília, meus amores.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

 

Que concurso, meu Glauceste,

Que concurso tão ditoso!

Tu és digno de cantares

O seu semblante divino;

E o teu canto sonoroso

Também do seu rosto é digno.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

 

Para pintares ao vivo

As suas faces mimosas,

A discreta natureza

Que providência não teve!

Criou no jardim as rosas,

Fez o lírio, e fez a neve.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

 

A pintar as negras tranças

Peço que mais te desveles,

Pinta chusmas de amorinhos

Pelos seus fios trepando;

Uns tecendo cordas deles,

Outros com eles brincando.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

 

Para pintares, Glauceste,

Os seus beiços graciosos,

Entre as flores tens o cravo,

Entre as pedras a granada,

E para os olhos formosos,

A estrela da madrugada.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

 

Mal retratares do rosto

Quanto julgares preciso,

Não dês a cópia por feita;

Passa o outros dotes, passa,

Pinta da vista, e do riso

A modéstia, mais a graça.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

 

Os seus pés, quando passeiam,

Pisando ternos amores;

E as mesmas plantas calcadas

Brotando viçosas flores.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

 

Pinta mais, prezado amigo,

Um terno amante beijando

Suas douradas cadeias;

E em doce pranto desfeito,

Ao monte, que temo no peito.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

 

Nem suspendas o teu canto,

Inda que, Pastor, se veja

Que a minha boca suspira,

Que se banha em pranto o rosto;

Que os outros choram de inveja,

E chora Dirceu de gosto.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

 

LIRA XXVII

Alexandre, Marília, qual o rio
que engrossando no Inverno tudo arrasa.
na frente das coortes
cerca, vence, abrasa
as cidades mais fortes;
foi na glória das armas o primeiro;
morreu na flor dos anos e já tinha
vencido o mundo inteiro.

Mas este bom soldado, cujo nome
não há poder algum que não abata,
foi, Marília, somente
um ditoso pirata,
um salteador valente:
Se não tem uma fama baixa e escura,
foi por se pôr ao lado da injustiça
a insolente ventura.

O grande César, cujo nome voa,
à sua mesma pátria a fé quebranta;
na mão a espada toma.
oprime-lhe a garganta,
Já senhores a Roma.
Consegue ser herói por um delito:
se acaso não vencesse, então seria
um vil traidor proscrito

O ser herói, Marília, não consiste
em queimar os impérios: move a guerra.
espalha o sangue humano
e despovoa a terra
também o mau tirano.
Consiste o ser herói em viver justo:
e tanto pode ser herói o pobre.
como o maior Augusto.

Eu é que sou herói, Marília bela,
seguindo da virtude a honrosa estrada:
ganhei, ganhei um trono:
ah! não manchei a espada,
não o roubei ao dono!
Ergui-o no teu peito e nos teus braços,
e valem muito mais que o mundo inteiro
uns tão ditosos laços.

Aos bárbaros, injustos vencedores
atormentam remorsos e cuidados;
nem descansam seguros
nos palácios, cercados
de tropa e de altos muros.
E a quantos nos não mostra a sábia História,
a quem mudou o fado em negro opróbio
a mal ganhada glória!

Eu vivo, minha bela, sim, eu vivo
nos braços do descanso e mais do gosto:
quando estou acordado.
contemplo no teu rosto,
de graças adornado;
se durmo, logo sonho e ali te vejo.
Ah! Nem desperto nem dormindo sobe
a mais o meu desejo!

LIRA XXXIV

Vou-me, ó bela, deitar na dura cama,
de que nem sequer sou o pobre dono;
estende sobre mim Morfeu as asas,
e vem ligeiro o sono.

Os sonhos que rodeiam a tarimba
mil cousas vão pintar na minha ideia;
não pintam cadafalsos; não, não pintam
nenhuma imagem feia.

Pintam que estou bordando um teu vestido;
que um menino com asas, cego e louro,
me enfia nas agulhas o delgado.
o brando fio de ouro.

Pintam que entrando vou na grande igreja;
pintam que as mãos nos damos, e aqui vejo
subir-te à branca Face a cor mimosa,
a viva cor do pejo.

Pintam que nos conduz dourada sege
à nossa habitação; que mil Amores
desfolham sobre o leito as moles folhas
das mais cheirosas flores.

Pintam que desta terra nos partimos;
que os amigos, saudosos e suspensos,
apertam nos inchados, roxos olhos
os já molhados lenços.

Pintam que os mares sulco da Baía,
onde passei a flor da minha idade:
que descubro as palmeiras, e em dois bairros
partida a grão cidade.

Pintam leve escaler e que na prancha
o braço já te ofereço, reverente;
que te aponta co dedo, mal te avista,
amontoada gente.

Aqui, «alerta»! – grita o meu soldado:
e o outro, «alerta estou!» lhe diz gritando:
acordo com a bulha... Então conheço
que estava aqui sonhando.

Se o meu crime não fosse só de amores,
a ver-me delinquente, réu de morte.
não sonhara, Marília, só contigo:
sonhara doutra sorte.

 

Parte II

Eu, Marília, não fui nenhum Vaqueiro,

Fui honrado Pastor da tua aldeia;

Vestia finas lãs, e tinha sempre

A minha choça do preciso cheia.

Tiraram-me o casal, e o manso gado,

Nem tenho, a que me encoste, um só cajado.

 

Para ter que te dar, é que eu queria

De mor rebanho ainda ser o dono;

Prezava o teu semblante, os teus cabelos

Ainda muito mais que um grande Trono.

Agora que te oferte já não vejo

Além de um puro amor, de um são desejo.

 

Se o rio levantado me causava,

Levando a sementeira, prejuízo,

Eu alegre ficava apenas via

Na tua breve boca um ar de riso.

Tudo agora perdi; nem tenho o gosto

De ver-te aos menos compassivo o rosto.

 

Propunha-me dormir no teu regaço

As quentes horas da comprida sesta,

Escrever teus louvores nos olmeiros,

Toucar-te de papoulas na floresta.

Julgou o justo Céu, que não convinha

Que a tanto grau subisse a glória minha.

 

Ah! minha Bela, se a Fortuna volta,

Se o bem, que já perdi, alcanço, e provo;

Por essas brancas mãos, por essas faces

Te juro renascer um homem novo;

Romper a nuvem, que os meus olhos cerra,

Amar no Céu a Jove, e a ti na terra.

 

Fiadas comprarei as ovelhinhas,

Que pagarei dos poucos do meu ganho;

E dentro em pouco tempo nos veremos

Senhores outra vez de um bom rebanho.

Para o contágio lhe não dar, sobeja

Que as afague Marília, ou só que as veja.

 

Senão tivermos lãs, e peles finas,

Podem mui bem cobrir as carnes nossas

As peles dos cordeiros mal curtidas,

E os panos feitos com as lãs mais grossas.

Mas ao menos será o teu vestido

Por mãos de amor, por minhas mão cosido.

 

Nós iremos pescar na quente sesta

Com canas, e com cestos os peixinhos:

Nós iremos caçar nas manhãs frias

Com a vara envisgada os passarinhos.

Para nos divertir faremos quanto

Reputa o varão sábio, honesto e santo.

 

Nas noites de serão nos sentaremos

C’os filhos, se os tivermos, à fogueira;

Entre as falsas histórias, que contares,

Lhes contarás a minha verdadeira.

Pasmados te ouvirão; eu entretanto

Ainda o rosto banharei de pranto.

 

Quando passarmos juntos pela rua,

Nos mostrarão c’o dedo os mais Pastores;

Dizendo uns para os outros: “Olha os nosso

“Exemplos da desgraça, e são amores”.

Contentes viveremos desta sorte,

Até que chegue a um dos dois a morte.

 

(Apostila 10 de Arcadismo Brasileiro)