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José Bonifácio, o Velho

Ode aos Gregos

Ó musa do Brasil, tempera a lira,

Dirige o canto meu, vem inspirar-me:

Acende-me na mente estro divino

De heróico assunto digno!

 

Se comigo choraste os negros males,

Que a saudosa cara pátria oprimem,

Da Grécia renascida altas façanhas

As lágrimas te seguem.

 

Se ao curvo alfange, se ao pelouro ardente,

Política malvada a Grécia vende;

As bandeiras da cruz, da liberdade,

Farpadas inda ondeiam.

 

As baionetas que os servis amestram,

Carnagem, fogo não assustem peitos

Que amam a liberdade, amam a pátria,

E de Helenos se prezam.

 

Como as gotas de chuva o sangue ensopa

Árido pó de campos devastados;

Como do funeral lúgubre sino

Gemidos mil retumbam.

 

Criancinhas, matronas, virgens puras,

Que à apostasia, que à desonra vota

O feroz Moslemim, filho do inferno,

Como mártires morrem.

 

E consentis, ó Deus! Que os tristes filhos

Da redentora cruz, árabes, turcos,

Exterminem do solo antigo e santo

Da abandonada Grécia?

 

Contra algozes os míseros combatem,

Contra bárbaros crus, honra e justiça:

E Europa geme, - só tiranos frios

Com tais horrores folgam.

 

Rivalidades, ambição, temores,

Sujo interesse, a inerte espada prendem,

E o sangue de cristãos, que lagos forma,

Um ai não lhes arranca!

 

Perecerás, ó Grécia, mas contigo

Murcharão de Albion honra e renome;

O sórdido egoísmo que a devora

É já do mundo espanto!

 

Não desmaies, porém: a Divindade

Roborará teu braço: e na memória

Gravará para exemplo os altos feitos

Dos ilustres passados.

 

Eis os mirrados ossos já se animam

De Miltíades: já da campa fria

Ergue a cabeça, e grito dá tremendo

Para acordar os netos.

 

“Helenos, brada, ó vós, prole divina,

Basta de escravidão – não mais opróbios!

É tempo de quebrar grilhão pesado

E de vingar infâmias.

 

“Se arrasastes de Tróia os altos muros

Para crime punir que amor causara,

Então por que sofreis há largos anos

Estupros e adultérios?

 

“Foram assento e berço às doutas musas

O sagrado Hélicon, Parnaso e Pindo:

Moral, sabedoria, humanidade

Fez vicejar a lira.

 

“Ante helênicas proas se acamava

Euxino, Egeu, e mil colônias iam

Levar artes e leis às rudes plagas,

E da Líbia e da Europa.

 

“Um punhado de heróis então podia

Tingir de sangue persa o vasto Ponto:

Montões de corpos inda palpitantes

Estrumavam os campos.

 

“Ah! Por que não sereis o que já fostes?

Mudou-se o vosso céu e o vosso solo?

E não são inda os mesmos estes montes,

Estes mares e portos?

 

“Se Esparta ambiciosa, Atenas, Tebas,

O fracticida braço não tivessem

Em seu sangue banhando, nunca a Grécia

Curvara o colo a Roma.

 

E se de Constantino a infame prole

Do fanatismo cego não houvera

Aguçado o punhal, ah! Nunca as luas

Tremularam ufanas.

 

Depois que foste, ó Grécia, miseranda,

De déspotas brutais brutal escrava,

Em a esquerda o Corão, na destra a espada,

Barbaria prega o turco.

 

“Assaz sorveste já milhões de insultos,

Já longa escravidão pagou teus crimes:

O Céu tem perdoado. – eia, já cumpre

Ser Helenos, ser homens.

 

“Eia, Gregos, jurai, mostrai ao mundo

Que sois dignos de ser quais fostes dantes;

Eia, morrei de todo, ou sedes livres!”

Assim falou, - calou-se.

 

E qual ligeira névoa sacudida

Pelo tufão do norte, a sombra augusta

Desaparece. A Grécia inteira brada:

“Ou liberdade ou morte”.

 

Ausência

Em Paris, no ano de 1790.

Pode o Fado cruel com mão ferrenha,
Eulina amada, meu encanto e vida,
Abafar este peito e sufocar-me!
Que pretende o Destino? em vão presume
Rasgar do meu o coração de Eulina,
Pois fazem sós um coração inteiro!
alma impressa,
Tu desafias, tu te ris do Fado.
Embora contra nós ausência fera,
Solitárias campinas estendidas,
Serras alpinas, áridos desertos,
Largos campos da cérula Amphitrite
Dois corpos enlaçados separando,
Conspirem-se até mesmo os Céus Tiranos.
Sim, os Céus! Ah! parece que nem sempre
Neles mora a bondade! Escuro Fado
Os homens bandeando, como o vento
Os grãos de areia sobre a praia infinda
Dos míseros mortais brinca e os males
Se tudo pode, isto não pode o Fado!
Sim, adorada, angelical Eulina.
Eterna viverás a esta alma unida,
Eterna! pois as almas nunca morrem.
Quando os corpos não possam atraídos
Ligarem-se em recíprocos abraços,
(Que prazer, minha amada! O Deus Supremo,
Quando fez com a voz grávido o Nada,
Maior não teve) podem nossas almas,
A despeito de mil milhões de males,
Da mesma morte. E contra nós que vale?
Do sangrento punhal, que o Fado vibre,
Quebrar a ponta; podem ver os Mundos
Errar sem ordem pelo espaço imenso;
Toda a Matéria reduzir-se em nada,
E podem ainda nossas almas juntas,
Em amores nadar de eterno gozo!

 

Improvisado

DERMINDA, esses teus olhos soberanos
Têm cativado a minha liberdade;
Mas tu cheia, cruel, de impiedade
Não deixas os teus modos desumanos.

Por que gostas causar dores e danos?
Basta o que eu sofro: tem de mim piedade!
Faze a minha total felicidade,
Volvendo-me esses olhos mais humanos.

Já tenho feito a última fineza
Para ameigar-te a rija condição;
És mais que tigre, foi baldada empresa.

Podem meus ais mover a compaixão
Das pedras e dos troncos a dureza,
E não podem abrandar um coração?

 

Ode aos Baianos (trecho)

(...)

Duas vezes, Bahianos, me escolhestes
Para a voz levantar a pró da pátria
Na assembléia geral; mas duas vezes
Foram baldados votos.

Porém enquanto me animar o peito,
Este sopro de vida, que ainda dura
O nome da Bahia, agradecido
Repetirei com júbilo.

Amei a liberdade, e a independência
Da doce cara pátria, a quem o Luso
Oprimia sem dó, com riso e mofa —
Eis o meu crime todo.

Cingida a fronte de sangrentos loiros
Horror jamais inspirará meu nome;
Nunca a viúva há de pedir-me o esposo,
Nem seu pai a criança.

Nunca aspirei a flagelar humanos —
Meu nome acabe, para sempre acabe,
Se para o libertar do eterno olvido
Forem precisos crimes.

Morrerei no desterro em terra estranha,
Que no Brasil só vis escravos medram —
Para mim o Brasil não é mais pátria,
Pois faltou a justiça.

(...)

[Eu vi Narcina um dia]

Eu vi Narcina um dia, que folgava
Na fresca borda de uma fonte clara:
Os peitos, em que Amor brinca e se ampara,
Com aljofradas gotas borrifava.

O colo de alabastro nu mostrava
A meu desejo ardente a incauta avara.
Com ponteagudas setas, que ela ervara,
Bando de Cupidinhos revoava.

Parte da linda coxa regaçado
O cândido vestido descobria;
Mas o templo de amor ficou cerrado:

Assim eu vi Narcina. — Outra não cria
O poder da Natura, já cansado;
E se a pode fazer, que a faça um dia.

 

(Apostila 2 de Pré-Romantismo Brasileiro)