ORFEU SPAM APOSTILAS

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FREI FRANCISCO DE SÃO CARLOS

A Assunção da Santa Virgem

Canto I [Era no tempo frígido, e sereno]

Era no tempo frígido, e sereno,

Em que ao nosso Hemisfério o riso ameno

Já mostra a primavera: vida ganha

O verdor dos Jardins, e da Campanha

Ia o Sol em Ástrea quase entrando,

Seus raios ida frouxos dardejando.

O torto Cajueiro se adornava

Das purpúreas folhinhas, que brotava.

Cobria-se de flores a mangueira,

E o ar embalsamava a laranjeira.

A sua fruta d’ouro, que em doçura

Vence a Aristeu, caía de madura.

O terno Sabiá buscando amores

Já saudava por entre os mil verdores

Do copado pomar, seu senhorio,

A chegada das águas, e do Estio.

Das ursas o Pyrhois se desviava,

E ao Capripedo término voltava.

Do pólo Árctico a parte toda escura

Deixando, o Céu da linda cinosura,

O Lapão frio, a inculta Noruega,

A quem natura quase tudo nega.

 

Canto II [Numa horrível prisão, que fez o Eterno]

Numa horrível prisão, que fez o Eterno

Na mais interna furna lá do inferno;

Onde em reto Juiz sopra inflexível

Contra os réprobos chama inextinguível

Habita Lúcifer: sentindo o peso

De Deus, que ali o suplanta em ira aceso.

É um monstro medonho, e tão disforme

Na massa colossal do vulto enorme,

Que se o doce repouso, e a paz gosara,

Deitado duas geiras ocupara.

De tão sombria, e horrenda catadura,

Que faz pavor à mesma Estige escura.

No réprobo semblante retratado

Vê-se todo o rancor dum condenado.

Os olhos afiguram dois cometas,

Que ardem entre duas nuvens pretas.

A boca era, se abria, internamente

Estuante fornalha. Quando ardente

Do peito o ar pestífero bafeja,

De vivas brasas turbilhões dardeja.

Assim do Etna o gigante, se respira,

Lavas de enxofre aceso a Jove atira:

Todo o monte convulso se a outro lado

Revira o enorme corpo, meio assado.

Não é tão feia, não, a noite umbrosa,

Que apanha o viajor em mata idosa,

Perdido entre fusis, raios freqüentes,

Urros de tigres, silvos de serpentes,

Como este monstro singular, e incrível,

Quase sem forma, quase indefinível.

Se o Canto Ulisseu vira esta demo,

Diria ser gentil o Polifemo.

Em torno dele giram a milhares

Vãos espectros, nas formas singulares

Do pecado, e da morte infame raça

Que lhe faz corte, que lhe faz a praça.

 

Canto III [Ó Musa, dá a meus versos a doçura]

Ó Musa, dá a meus versos a doçura

Dos frutos, de que vou dar a pintura.

A manga doce, e em cheiro soberana,

Que imita o coração, no galho ufana,

De um lado a crócea cor, e fulva exalta

Do luzente metal, que a muitos falta,

De outro lado porém retrata aquela,

Que o pudor chamas às faces da donzela.

Pendendo estão dos ramos verdejantes

Os cajus, à saúde tão prestantes;

Uns amarelos, e outros encarnados,

Das gostosas castanhas coroados:

Talismãs, que lhes deu a natureza,

Por não se fascinar tanta beleza,

Odoríferos jambos coroados

Alvejam na vergôntea apinhoados.

Negreja o liso abrunho, envolto em luto,

O qual da Síria veio: e o débil fruto,

Que lá de Cerasuta o nome toma,

Por Lúculo trasido à velha Roma.

Entre as folhas gigantes laceradas

Dos bananais espessos arranjadas

Lourejam suas filhas; aguçando

O apetite, e os olhos afagando..

Dos folhudos festões estão pendentes,

Pelo tronco trepando, os recendentes

Frutos da agreste flor, quadro imitante,

Do martírio, e paixão de um Deus amante.

Gemem enfim as árvores curvadas

Com o peso das frutas sazonadas.

Do limão virginal, da áurea laranja,

Pomos d’oiro talvez, que em vossa granja

Hispérides zeláveis; mas colhidos,

São por Tirintio a Euristeu trazidos.

No mesmo ramo encanta a formosura

Da fruta em flor, da verde, ou já madura:

Mostrando a natureza aqui reunido,

Quanto n’outras sazões tem repartido.

Tal matrona fecunda em proles belas

Núbeis tem, uma ao colo, e outras puelas.

Assim num quadro só pincéis mui hábeis

Desenham mil objetos deleitáveis.

Assim por São João, no mês nevado,

Depois do esbulho teres suportado

De tuas ramas velhas, ó roseira,

Aos astros te apresentas lisonjeira,

Quando as novas de rosas mil enxertas;

Umas inda em botão, outras já abertas.

Em vão nédios racimo a encrespada

Vide, que com o olmeiro está casada

À luz fébea expõem, tanta riqueza

Ai! Da pompa é troféu, é só beleza.

Alígero cantora da etérea estância

Apenas prova parte da abundância.

Tal era a sorte de outras muitas frutas,

Sempre das mãos intactas, e incorruptas.

Tal a da pinha, que trazida outrora

Do Eóo país, berço da aurora,

Com seu néctar suave torna escravos,

Abelhas de monte Hibla, vossos favos.

Tal a tua, ananás, rasteiro, e baixo:

Mas que tens por coroa alto penacho,

E em vestido de escamas, qual guerreiro,

Um hálito bafejas lisonjeiro.

Nem baixo te reputes desonroso:

Tal de Carlos o pai, mas foi famoso.

E o bravo lá da Emátia, na estatura

Apoucado, foi raio de bravura.

Canto IV [Que cenas mais pueris, e extravagantes]

Que cenas mais pueris, e extravagantes,

Que os deuses ver correndo dos gigantes,

Vagar aqui, e ali, sempre assustados;

Nas grutas, e nas brenhas eclipsados?

Em ridículas feras convertidos,

Por não serem dos monstros percebidos?

O mesmo Jove que do Olimpo atroa,

Com a prole bastarda só povoa

De Deus Céu, de Semideuses terra:

Feito, que a idéia Divinal desterra:

Ele foi por lascivo, chuva d’ouro,

Carneiro, cisne, e águia, enfim foi touro.

Era o orgulho decoro: gentileza

Imolar o rival, honra e nobreza

Praticar horrores da vingança,

Ou ter em cinza a brasa da esperança.

Eis tua moral, Politeísmo

Que tinha de extirpar o heroísmo

Destes claros varões assinalados;

Pregoeiros de Deus, do Céu mandados.

 

Canto V [Nas planícies do Céu, entre sombrio]

Nas planícies do Céu, entre sombrio

Arvoredo copado, há um desvio.

E um grato retiro afortunado,

Somente pelos Anjos freqüentado:

Que ali vão várias vezes de passeio

Por mudar, ou de sítio, ou de recreio.

Aqui de fino jaspe antiga gruta

Existe, de uma fone nunca enxuta;

Que desce murmurando cristalina

Por áreas de prata. Aqui domina

A taciturna imagem do segredo.

Já mais de Orfeus alígeros o enredo

Doce gorjeia: não sussurra o vento,

Nem range, ou bate porta de aposento.

Não soa ao longe lá da torre enorme

O relógio fiel, que nunca dorme.

Nem a voz da atalaia, que disperta

Gritando ao camarada: alerta, alerta.

Não freme o duro quicio ao carro preso,

A força estranha a resistir do peso.

Nem late o cão fiel ao vão ruído,

Guardando a grei do armento espavorido.

Está tudo em silêncio, eternas flores

Matizam o lugar, e os seus verdores.

É propriamente a Lapa, e os tais matizes,

Habitação dos Êxtasis felizes,

Que ali moram, e estão sempre suspensos,

A contemplar do Eterno os dons imensos.

 

Canto VI [A palmachristi, a nova Ipecacuanha]

A palmachristi, a nova Ipecacuanha

Do velho Dioscórides estranha.

Da Cupaíba o óleo precioso,

Que vence a dor e o golpe mais p’rigoso.

Ervas, plantes, sucos e virtude

Férteis de vida, fontes de saúde.

Encontram-se também tribos errantes

Nos bosques; que entre si beligerantes

Vivem de singular, e estranho povo,

Que parece outra raça, gérmen novo.

Antropófagos são, que a tão sabido

Grão de horror chega humano embrutecido!

Pintam o rosto seu mal encarado

De verde, cróceo, roxo, e de encarnado.

E por fugir à vespa o corpo todo

De resinas agrestes, ou de lodo.

Tecer ignoram; mas as suas telas

São as plumas das aves, cores belas.

A vida passam em contínuas festas

De crápulas, e danças inhonestas.

A cidade, que ali vedes traçada,

E que a mente vos traz tão ocupada,

Será nobre colônia, rica, forte,

Fecunda em gênios, que assim quis a sorte.

Será pelo seu porto desmarcado

A feira do oiro, o empório freqüentado.

Aptíssimo ao comércio; pois profundo

Pode as frotas conter de todo o mundo.

Será de um povo excelso, gérmen airoso

Lá da Lísia, o lugar mais venturoso.

Pois dos Lusos Brasílicos um dia

O centro dever ser da Monarquia.

 

Canto VII[No meio deste horror, que o execrando]

No meio deste horror, que o execrando

Orço pálido excita, um Drago infando,

Que lá no abismo ignipotente impera;

Lusbel por nome, nome que trouxera

Antes de ser das nuvens fulminado,

Saindo a campo, eis que esbraveja ousado:

E com voz de trovão, que a esfera espanta,

Tais blasfêmias vomita da garganta; -

“Se dessa tubra laxa, vil, malquista,

Por onde com horror estendo a vista,

Ousa alguém arrostar-me, e não receia

Comigo se medir, venha ‘té a área:

Venha, que o espero: e já de agora juro,

Que a coragem decida do futuro.

Mas que digo: ousa alguém fazer-me frente?

A mim? Conquistador Omnipotente?

A mim? Que cultos tenho, tenho altares

Fumando o incenso? A mim? A quem milhares

Se prostram lá no Estix, que nada temo,

Que sou Nume do Côas, um Deus supremo?”

Os íncolas do Céum com tais sarcasmos

Estremecerão, e ficarão pasmos

Que ouviram um Deus fora daquele,

Do orbe Autor, e quanto existe nele.

Tal no vale se lê do Terebinto

Que um Filisteu membrudo, armado o cinto

De brônzeas malhas contra o Céu bradava:

Mas a fúria brutal, que blasfemava

De Jeová, acabou no débil braço

De um inerme pastor sem peito d’aço.

Recusaram os Anjos o duelo

Por falta igualdade. Mas o zelo,

Que a Michael inflama, não podendo

Mais moderar-se, que lhe está fervendo

Fê-lo pular, e o colo da altiveza

Espezinha sanhudo. Tal presteza

Mostra açor se de um vôo em terra tomba

E entre as garras empolga a incauta pomba.

O monstro sufocado, inutilmente

Revolve o resto do volume ingente.

Tal a cobra no colo se é calcada,

A cauda enrola, e desenrola irada.

Rápido arqueja, túmido assobia,

E em vão contra o Celeste o dente afia.

Não podendo escapar, com mil atrozes

Ardis passa a inventar metamorfoses.

Agora em fogo, agora em água fria,

Agora em lodo vil se convertia.

Umas vezes o corpo dividindo

Em partículas mil, está fingindo

O mineral volúvel prateado,

No solo derretido, ou boleado.

Outras em pó, fumaças, e granizo

Volvia-se o maldito d’improviso;

Mas o Celeste Campeão com peso

Debaixo dos seus pés sustinha-o preso.

 

Canto VIII[Eis a Jerusalém nova, escondida,]

Eis a Jerusalém nova, escondida,

(Uns aos outros diziam) que vestida

De graças mil, de luz, de formosura,

Remonta, e vem da solidão escura.

O Sol, que lá do Arquétipo saindo,

Riu-se toda a natura, ao ver tão lindo;

 

O Sol, astro de influxos bem feitores,

Que Oceano de Luz, e resplendores

Empresta aos outros astros claridade;

Nunca ostentou tão linda majestade.

 

(Apostila 1 de Pré-Romantismo Brasileiro)