ORFEU SPAM APOSTILAS

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SONETOS

DE CLÁUDIO MANUEL DA COSTA

 

I

Leia a posteridade, ó pátrio Rio,

Em meus versos teu nome celebrado;

Por que vejas uma hora despertado

O sono vil do esquecimento frio:

 

Não vês nas tuas margens o sombrio,

Fresco assento de um álamo copado;

Não vês ninfa cantar, pastar o gado

Na tarde clara do calmoso estio.

 

Turvo banhando as pálidas areias

Nas porções do riquíssimo tesouro

O vasto campo da ambição recreias.

 

Que de seus raios o planeta louro

Enriquecendo o influxo em tuas veias,

Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.

 

"Soneto VI"

Brandas ribeiras, quando estou contente
De ver-vos se isto é verdade!
Quanto me alegra ouvir a suavidade,
Com que Fílis entoa a voz cadente!

Os rebanhos, o gado, o campo, a gente,
Tudo me está causando novidade:
Oh! como é certo que a cruel saudade
Faz tudo, do que foi, mui diferente!

Recebei ( eu vos peço ) um desgraçado,
Que andou-te afora por incerto giro,
Correndo sempre atrás do seu cuidado:

Este pranto, estes ais com que respiro,
Podendo comover o vosso agrado,
Façam digno de vós o meu suspiro.

 

"Soneto VII"

Onde estou ? Este sítio desconheço:
Quem fez tão diferente aquele prado ?
Tudo outra natureza tem tomado,
E em contemplá-lo, tímido, esmoreço.

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
De estar a ela um dia reclinado;
Ali em vale um monte está mudado:
Quanto pode dos anos o progresso!

Árvores aqui vi tão florescentes,
Que faziam perpétua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.

Eu me engano: a região esta não era;
Mas que venho a estranhar. Se não presentes
Meus males, com que tudo degenera!

 

“Soneto XXII”

Neste álamo sombrio, aonde a escura

Noite produz a imagem do segredo;

Em que apenas distingue o próprio medo

Do feio assombro a hórrida figura;

 

Aqui, onde não geme, nem murmura

Zéfiro brando em fúnebre arvoredo,

Sentado sobre o tosco de um penedo

Chorava Fido a sua desventura.

 

Às lágrimas a penha enternecida

Um rio fecundou, donde manava

D’ânsia mortal a cópia derretida:

 

A natureza em ambos se mudava;

Abalava-se a penha comovida;

Fido, estátua da dor, se congelava.

 

XXXIII

Aqui sobre esta pedra, áspera, e dura,

Teu nome hei de estampar, ó Francelisa,

A ver, se o bruto mármore eterniza

A tua, mais que ingrata, formosura.

 

Já cintilam teus olhos: a figura

Avultando já vai; quanto indecisa

Pasmou na efígie a idéia, se divisa

No engraçado relevo da escultura.

 

Teu rosto aqui se mostra; eu não duvido,

Acuses meu delírio, quando trato

De deixar nesta pedra o vulto erguido;

 

É tosca a prata, o ouro é menos grato;

Contemplo o teu rigor: oh que advertido!

Só me dá esta penha o teu retrato!

 

LIX

Lembrado estou, ó penhas, que algum dia,

Na muda solidão deste arvoredo,

Comuniquei convosco o meu segredo,

E apenas brando o zéfiro me ouvia.

 

Com lágrimas meu peito enternecia

A dureza fatal deste rochedo,

E sobre ele uma tarde triste, e quêdo

A causa de meu mal eu escrevia.

 

Agora torno a ver, se a pedra dura

Conserva ainda intacta essa memória,

Que debuxou então minha escultura.

 

Que vejo! esta é a cifra: triste glória!

Para ser mais cruel a desventura,

Se fará imortal a minha história.

 

LXII

 

Torno a ver-vos, ó montes; o destino

Aqui me torna a pôr nestes oiteiros;

Onde um tempo os gabões deixei grosseiros

Pelo traje da Côrte rico, e fino.

 

Aqui estou entre Almendro, entre Corino,

Os meus fiéis, meus doces companheiros,

Vendo correr os míseros vaqueiros

Atrás de seu cansado desatino.

 

Se o bem desta choupana pode tanto,

Que chega a ter mais preço, e mais valia,

Que da cidade o lisonjeiro encanto;

 

Aqui descanse a louca fantasia;

E o que té agora se tornava em pranto,

Se converta em afetos de alegria.

 

"Soneto XCVIII"

Destes penhascos fez a natureza
O berço em que nasci: oh! quem cuidara
Que entre penhas tão duras se criara
Um alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra o meu coração guerra tão rara,
Que me foi bastante a fortaleza.

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
A que dava ocasião brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano:

Vós que ostenteis a condição mais dura,
Temei, penhas, temei, que Amor tirano,
Onde há mais resistência, mais se apura.

 

 

 

 (Apostila 5 de Arcadismo Brasileiro)