ORFEU SPAM APOSTILAS

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Caldas Barbosa

A Ternura Brasileira

Não posso negar, não posso,
Não posso por mais que queira,
Que o meu coração se abrasa
Da ternura Brasileira.

Uma alma singela, e rude
Sempre foi mais verdadeira,
A minha por isso é própria
Da ternura Brasileira.

Lembra na última idade
A paixão lá da primeira,
Tenho nos últimos dias
A ternura Brasileira.

Vejo a carrancuda morte
Ameigar sua viseira,
Por ver que ao matar-me estraga
A ternura Brasileira.

Caronte que chega à barca,
E que me chama à carreira,
Vê que o batel vai curvando
Co'a ternura Brasileira.

Mal piso sobre os Elísios,
Outra sombra companheira
Chega, pasma, e não conhece
A ternura Brasileira.

Eu vejo a infeliz Rainha
Que morre em ampla fogueira,
Por não achar em Enéias
A ternura Brasileira.

Do mundo a última parte
Não tem frase lisonjeira,
As três que a têm não conhecem
A ternura Brasileira.

Do mundo a última parte
Foi sempre em amar primeira,
Pode às três servir de exemplo
A ternura Brasileira.

Coração Não Gostes Dela, Que Ela Não Gosta de Ti

Coração, que tens com Lília?
Desde que seus olhos vi,
Pulas, e bates no peito,
Tape tape, tipe ti:

Coração, não gostes dela,
Que ela não gosta de ti.

Quando anda, quando fala,
Quando chora, quando ri;
Coração, tu não sossegas,
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Já te disse que era d'outro;
Coração, não te menti;
Mas tu, coitado! te assustas,
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Aquele modo risonho
Não é, nem foi para ti;
Basta, louco, e não estejas
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Um dia que me afagava,
Zombava, eu bem percebi,
Era por gostar de ver-te
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Coração, tu não me enganes
Todo o teu mal vem dali;
Tu palpitando te explicas,
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

É amável, mas não ama,
Eu já mesmo to adverti;
E tu mui néscio teimando,
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Si tu leres nos seus olhos,
O que eu com meus olhos li,
Talvez te não canses tanto,
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Desprezo da Maledicência

Depois que eu te quero bem,
Deu o mundo em murmurar;
Porém que lhe hei de eu fazer?
É mundo, deixa falar.

Não te enfades menina
Deixa o mundo falar.

Sabes porque fala o mundo,
É só por nos invejar;
Ele tem ódio aos ditosos,
É mundo, deixa falar.

Não etc.

As loucas vozes do mundo
Tu não deves escutar,
Pois que sem razão murmura,
É mundo, deixa falar.

Não etc.

Ouve só a quem te adora,
Quem anda por ti a bradar;
Dos outros não faças caso,
É mundo, deixa falar.

Não etc.

Menina, vamos amando,
Que não é culpa o amar;
O mundo ralha de tudo,
É mundo, deixa falar.

Não etc.

Que fazem nossos amores
Para o mundo murmurar?
É mau costume do mundo,
É mundo, deixa falar.

Não etc.

Sempre todos me hão de ver
Por meu bem a suspirar;
Se disto falar o mundo,
É mundo, deixa falar.

Não etc.

Ah meu bem não pretendamos
Do povo a boca tapar;
Bem sabes que o povo é mundo,
É mundo, deixa falar.

Não etc.

Doçura de Amor

Cuidei que o gosto de Amor
Sempre o mesmo gosto fosse,
Mas um Amor Brasileiro
Eu não sei porque é mais doce.

Gentes, como isto
Cá é temperado,
Que sempre o favor
Me sabe a salgado:
Nós lá no Brasil
A nossa ternura
A açúcar nos sabe,
Tem muita doçura,
Oh! se tem! tem.
Tem um mel mui saboroso
É bem bom, é bem gostoso.
As ternuras desta terra
Sabem sempre a pão e queijo,
Não são como no Brasil
Que até é doce o desejo.

Gentes, etc.

Ah nhanhá venha escutar
Amor puro e verdadeiro,
Com preguiçosa doçura
Que é Amor de Brasileiro.

Gentes, etc.

Os respeitos cá do Reino
Dão a Amor muita nobreza,
Porém tiram-lhe a doçura
Que lhe deu a Natureza.

Gentes, etc.

Quanto a gente tem nhanhá
Que lhe seja bem fiel,
É como no Reino dizem
Caiu a sopa no mel.

Gentes, etc.

Se tu queres qu'eu te adore
À Brasileira hei de amar-te,
Eu sou teu, e tu és minha,
Não há mais tir-te nem guar-te.

Gentes, etc.

Lundum [Eu nasci sem coração]

Eu nasci sem coração
Sendo com ele gerado,
Porqu'inda antes de nascer
Amor mo tinha roubado.

Resposta

Meu bem, o meu nascimento
Não foi como ele nasceu;
Qu'eu nasci com coração,
Aqui stá que todo é teu.

Apenas a minha vista
De ti notícia lhe deu,
Logo ele quis pertencer-te
Aqui stá que todo é teu.

Bebendo a luz dos teus olhos
Nela um veneno bebeu;
É veneno que cativa
Aqui stá que todo é teu

Ele em sinal do seu gosto
Pulou no peito, e bateu;
Vem vê-lo como palpita
Aqui stá que todo é teu.

Para ser teu Nhanhazinha
Não deixei nada de meu,
Té o próprio coração,
Aqui stá que todo é teu.

Se não tens mais quem te sirva
O teu moleque sou eu,
Chegadinho do Brasil
Aqui stá que todo é teu.

Eu era da Natureza
Ela o Amor me vendeu;
Foi para dar-te um escravo
Aqui stá que todo é teu.

Quando Amor me viu rendido
Logo o coração te deu;
Disse menina recebe
Aqui stá que todo é teu.

Unidos os corações
Deve andar o meu c'o teu;
Dá-me o teu, o meu stá pronto
Aqui stá que todo é teu.

Lundum de Cantigas Vagas [Xarapim eu bem estava]

Xarapim eu bem estava
Alegre nest'aleluia,
Mas para fazer-me triste
Veio Amor dar-me na cuia.

Não sabe meu Xarapim
O que amor me faz passar,
Anda por dentro de mim
De noite, e dia a ralar.

Meu Xarapim já não posso
Aturar mais tanta arenga,
O meu gênio deu à casca
Metido nesta moenga.

Amor comigo é tirano
Mostra-me um modo bem cru,
Tem-me mexido as entranhas
Qu'estou todo feito angu.

Se visse o meu coração
Por força havia ter dó,
Por que o Amor o tem posto
Mais mole que quingombó.

Tem nhanhá certo nhonhó,
Não temo que me desbanque,
Porque eu sou calda de açúcar
E ele apenas mel do tanque.

Nhanhá cheia de chulices
Que tantos quindins afeta,
Queima tanto a quem a adora
Como queima a malagueta.

Xarapim tome o exemplo
Dos casos que vêm em mim,
Que se amar há-de lembrar-se
Do que diz seu Xarapim.

Estribilho

Tenha compaixão
Tenha dó de mim,
Porqu'eu lho mereço
Sou seu Xarapim.

O Bicho Mulher

Quem quiser ter seu descanso
Quem sossego quiser ter,
Na densa mata do mundo
Fuja do bicho mulher.

Rói por dentro
Bem como a traça,
É quem motiva
Nossa desgraça.
Aquela menina
Que tem mais graça,
É essa quem causa
Maior desgraça.

Não temo leões nem tigres
Nem já os devo temer,
Depois de haver escapado
Ao lindo bicho mulher.

Rói, etc.

Ouço sibilar serpentes
E não me fazem tremer,
Assusta-me o ruge ruge
Do lindo bicho mulher.

Rói, etc.

Dizem que o crocodilo
Às vezes finge gemer,
Para matar assim finge
O lindo bicho mulher.

Rói, etc.

Sinto dentro do meu peito
Não sei que coisa morder,
Dizem que isto é mordedura
Do lindo bicho mulher.

Rói, etc.

Mas morder-me sem chegar-me
Isso não, não pode ser,
Ai de mim! morde co'a vista
O lindo bicho mulher.

Rói, etc.

Lanço ao ar as carapuças
Dêem na cabeça a quem der,
O que digo é: fujam todos
Do lindo bicho mulher.

Rói, etc.


 

(Apostila 3 de Arcadismo Brasileiro)