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Ungulani Ba Ka Khosa - Ualalapi

Escritor moçambicano, de nome verdadeiro Francisco Esau Cossa, nascido a 1 de Agosto de 1957, em Inhaminga, província de Sofala. Tirou o bacharelato em História e Geografia na Faculdade de Educação da Universidade Eduardo Mondlane, exercendo a função de professor. Iniciou a sua carreira de escritor com a publicação de alguns contos e participou na fundação da revista Charrua na Associação de Escritores Moçambicanos, de que é membro. Tem publicadas a seguintes obras: Ualalapi (1987), Orgia dos Loucos (1990), Histórias de Amor e Espanto (1999) e No Reino dos Abutres (2002).

Centrada sobre a crueldade e despotismo de Ngungunyane, o último Imperador de Gaza, Ualalapi , a primeira das obras citadas, foi distinguida, em 1990, com o Grande Prémio da Ficção Narrativa; em 1994 com o Prémio Nacional de Ficção e, em 2002, foi considerada como um dos melhores livros africanos do século XX.

Ungulani Ba Ka Khosa por Ungulani:

"Os editores têm sempre a mania de exigirem uma pequena resenha das nossas vidas. Somos obrigados a abrir algumas estradas e enveredarmos por carreiros que só a nós nos diz respeito. É assim a vida. Mas vamos a ela: Nasci em Inhaminga, Distrito de Cheringoma (província de Sofala) a um de Agosto do ano 57. Nunca assentei arraiais por largo tempo num determinado local. Andei pelo país inteiro (exceptuando Tete). De formação tenho um bacharelato que sustenta o Ungulani. De livros posso mencionar Ualalapi, Orgia dos Loucos, e Estórias de Amor e Espanto. Pronto. Cá está parte do meu percurso. "

(contra-capa de No Reino dos Abutres, Imprensa Universitária, 2002, Maputo)

Ualalapi - resenha:Ualalapi é o nome de um guerreiro nguni a quem é destinada a missão de matar Mafemane, irmão de Mudungazi (depois chamado Ngungunhane-Gungunhana). Este guerreiro dá o título ao relato, ficcionado por Ba Ka Khosa, da vida e da época do hosi (rei, imperador, em língua tsonga) Ngungunhane, famoso pela resistência que opôs aos portugueses nos finais do séc. XIX. Mas à medida que a narrativa progride, o quadro que se desenrola aos nossos olhos é bem outro. Numa escrita veloz, forte, densa, violenta, crua, chocante por vezes, recorrendo a metáforas quase brutais, perpassada de aforismos e de uma raiva não disfarçada que a poderosa imaginação visual do autor reforça, Ngungunhane é-nos revelado como um homem cruel, sanguinário, violento, um verdadeiro tirano para o seu povo - a sua designação como imperador ou rei é propositadamente anárquica -, na mesma medida em que os colonizadores portugueses o eram para com esse mesmo povo (vejam-se os testemunhos epocais transcritos, num paralelismo óbvio com o que se vai ler em seguida). Um e outros provocam a destruição do império de Gaza, deixando um rasto de miséria, fome, crueldade, sofrimento e humilhação. Uma «história»-ficção de sangue, de guerra, de arbitrariedades, de morte. Mas sem dúvida tão perturbadora quanto fascinante.

"Estes homens da cor de cabrito esfolado que hoje aplaudis entrarão nas vossas aldeias com o barulho das suas armas e o chicote do comprimento da jibóia. Chamarão pessoa por pessoa, registando-vos em papéis que ... vos aprisionarão. Os nomes que vêem dos vossos antepassados esquecidos morrerão por todo o sempre, porque dar-vos-ão os nomes que bem lhes aprouver, chamando-vos merda e vocês agradecendo. Exigir-vos-ão papéis até na retrete, como se não bastasse a palavra, a palavra que vem dos nossos antepassados, a palavra que impôs a ordem nestas terras sem ordem, a palavra que tirou crianças dos ventres das vossas mães e mulheres. O papel com rabiscos norteará a vossa vida e a vossa morte, filhos das trevas".


[O último discurso de Ngungunhanhe, segundo Ungulani Ba Ka Khosa, Ualalapi, Associação dos Escritores Moçambicanos, 2ª edição, p. 118]


Capítulo de tese de Christoph Oesters (Utrecht, 11/2005)

Ualalapi

  

O livro de estréia de Ungulani Ba Ka Khosa Ualalapi, publicado em 1987, é um romance histórico que foi distinguido em 1994 com o prémio Nacional de Ficção, e em 1990, junto com Vozes Anoitecidas de Mia Couto[1], com o Grande Prémio da Ficção Narrativa. Trata-se da primeira obra de ficção que, como sublinha Chabal (1996: 85), se dedica exclusivamente ao passado colonial de Moçambique e que conta a ascensão de Ngungunhane, o imperador de Gaza, famoso pela resistência que opôs aos portugueses nos finais do século XIX e a derrocada do seu império. O livro constrói-se a partir de uma colagem de fragmentos históricos, comentários de oficiais portugueses envolvidos na campanha contra o império de Ngungunhane, e a imaginação de Khosa na reconstrução de episódios deste período na forma de seis contos que constituem o romance. Deste modo o livro aborda exactamente o momento inicial da ocupação efectiva pelos portugueses e a passagem do tempo pré-colonial ao período colonial. Ualalapi, no entanto, não é uma obra que apresenta os grandes feitos heróicos de um Grande Homem contra a violência do domínio colonial, como Ngungunhane vai ser retratado no Moçambique da pós-independência. Em vez disso dedica-se muito mais a uma representação de Ngungunhane que corresponde à realidade histórica, mostrando a imagem de um tirano cruel em relação aos outros povos africanos, mas também para com o seu próprio povo.

É por essa razão que o ‘Outro’, na forma dos ‘brancos, do outro lado do mar’[2], se limita na parte fictícia do romance a duas alusões inseridas nos episódios relatados. A primeira encontra-se logo no começo do romance, na referência à morte de Ngungunhane no exílio “em roupas que sempre rejeitara e no meio da gente da cor do cabrito esfolado que muito se espantara por ver um preto” (p.30). Apesar deste anúncio da consequência final da invasão dos portugueses para o rei, verifica-se a presença do invasor europeu na parte fictícia do romance primeiro incidentalmente, como quando os grandes do reino têm de decidir sobre o castigo do guerreiro Mputa, que é falsamente acusado de ter afrontado a primeira mulher do imperador:

(...) Este, com a argúcia que a vida ensinara, disse ao rei, em jeito de síntese, que a morte não seria digna para um homem que ousou cobiçar o corpo da rainha. Era necessário um castigo brutal e memorável na mente dos súbditos; por que não cegá-lo como faziam os tsongas em tempos que não importa recordar? Caso faças isso o teu poder imperial sairá fortificado nestes tempos tumultuosos em que os homens da cor de cabrito esfolado assediam o teu reino vasto (Khosa 1990: 47).

 

O romance dá-nos assim uma impressão da maneira como os portugueses surgiram lentamente nesta parte da África e como eram percepcionados enquanto seres diferentes. É, por outro lado, um ponto de vista que contrasta com os fragmentos históricos dos oficiais portugueses, intitulados “Fragmentos do fim”, que representam a história do ponto de vista do colonizador. Estes falam sobretudo sobre o andamento da campanha militar e revelam a relação de domínio subjacente.

O significado histórico da presença portuguesa relativamente ao futuro desenvolvimento do território mostra-se no fim do livro, no derradeiro capítulo “O último discurso de Ngungunhane”, que é um monólogo no qual Ngungunhane profetiza o período colonial, antes da sua partida para o desterro:

Estes homens da cor de cabrito esfolado que hoje aplaudis entrarão nas vossas aldeias com o barulho das suas armas e o chicote do comprimento da jibóia. Chamarão pessoa por pessoa, registando-vos em papéis que enlouqueceram Manua e que vos aprisionarão (Khosa 1990: 118).

Segue-se uma séria de descrições pormenorizadas das conseqüências socio-culturais do tempo colonial referindo-se à alienação da sociedade moçambicana em relação às culturas africanas e à dinâmica e ao impacto social do período do domínio português. Manua, o filho de Ngungunhane a que se refere aqui o imperador, é relativamente às diferentes formas em que se manifesta o ‘Outro’ certamente uma das personagens mais interessantes do livro, por ser, como afirma, um “dos poucos na minha tribo, que teve acesso ao mundo dos brancos, à sua língua, aos seus costumes e à sua ciência (...)” (p.100). A alienação dele em relação à sua origem africana revela-se nitidamente, nesta passagem:

Quando eu for imperador eliminarei estas práticas adversas ao Senhor, pai dos céus e da Terra. Serei dos primeiros, nestas terras africanas a aceitar e assumir os costumes nobres dos brancos, homens que estimo desde o primeiro dia que tive acesso ao seu civismo são (p.100).

         Manua revela-se aqui um adepto fervoroso dos costumes do ‘Outro’, colonizador e da cultura europeia, um forte contraste com a profecia de Ngungunhane no fim do livro que mostra um ponto diferente de vista do imperador em relação à cultura europeia, indicando uma grande diferença entre as posições do pai e do filho:

(...); e haverá homens com vestes de mulher que percorrerão campos e aldeias, obrigando-vos a confessar males cometidos e não cometidos, convencendo-vos de que os espíritos nada fazem, pois tudo o que existe na terra e nos céus está sob o comando do ser que ninguém conhece mas que acompanha os vossos passos e as vossas palavras e os vossos actos. A noite terá caído definitivamente nestas terras que mudarão de face com o vosso suor (p.119).

         Trata-se aqui de uma alusão aos efeitos da “desvalorização das formas de culturas indígenas, que caracterizou a política colonial de assimilação” (Leite: 1998: 90), em que Manua representa um dos primeiros moçambicanos envolvidos neste processo, que “contribuiu para a descaracterização e rasura de valores ancestrais” (idem), o que se pode verificar também na descrição do moço pelos outros passageiros no navio a Lourenço Marques que afirmam que se veste “como um branco (...), (...) não tem cara de maltês, (...), (...) e estudou muito mais que o compadre” (p.104). O filho de Ngungunhane apresenta-se, portanto, como um dos primeiros africanos assimilados, o que nos indica a alienação de uma parte da sociedade moçambicana através da influência da cultura europeia.

Por outro lado, a violência excessiva no romance que caracteriza os métodos de Ngungunhane mostra um paralelo com a brutalidade deste ‘Outro’, colonizador e português nos “Fragmentos do fim”. Faz com que o imperador, a personagem central nesta época crucial na história de Moçambique, se revele um tirano que não se distingue dos portugueses na opressão e destruição das culturas africanas, que considera com uma inferioridade semelhante:

(...) Trouxemos a chuva para estas terras adustas e educamos gente brutalizada pelos costumes mais primários. E hoje essa gente está entre vocês. Nguni! (p.29).

A crueldade com que Ngungunhane governava exibe-se frequentemente no romance e pode ser lida nas entrelinhas das palavras do rei a respeito do castigo de Mputa que “puseram em delírio o povo tsonga que esquecera que estava perante o invasor que poisara naquelas terras com o sangue dos inocentes guerreiros nunca relembrados, (...)” (p.49), o que sublinha mais uma vez a semelhança entre a maneira de agir do imperador de Gaza e os métodos dos portugueses. É um facto que se pode verificar também no capítulo “O cerco ou fragmentos de um cerco” que comprova a ferocidade com que o imperador submeteu outros povos e onde se pode observar como os nguni correspondem ao ‘Outro’ do ponto de vista dos machopes:

– Vamos lutar e morrer se for necessário, mas o nosso desprezo pelos nguni manter-se-á por séculos, porque esta terra é e será nossa. (...) O nosso não é para que as nossas mulheres não sejam escravas e os nossos filhos não engrossem as fileiras desse exército bárbaro. (...).

– Iremos para a luta com a certeza da vitória, apesar deste cerco criminoso que moveram contra nós, um cerco que contraria os princípios mais elementares de uma guerra de homens, de uma guerra que os nossos antepassados mais remotos cultivaram com a certeza de que os homens olham-se de frente e as lanças chocam-se sob o olhar atento dos guerreiros (...) (p.86).

         O trecho sublinha obviamente a destruição de algumas partes da sociedade autóctone que se deu, portanto, já sob o domínio de Ngungunhane cujo regimento se caracterizava pela inobservância das regras da tradição. O fragmento comprova que o não respeito por uma cultura tradicional e a relação subjacente de domínio, que certamente entrou numa fase de aceleração sob domínio colonial português, já começou no período do império de Gaza no fim do século XIX, onde a opressão de povos e tradições já fazia parte da estratégia imperial de Ngungunhane.

O mesmo pode verificar-se no que diz respeito à própria tradição nguni, como consta do caso da doença misteriosa da sua mulher preferida, Damboia[3], caso que mostra como Ngungunhane se sobrepõe à tradição, proibindo a realização do nkuaia devido à convicção dele que “e se ela se vai, vai-se o império, homens!” (p.63), quebrando a regra de só não realizar a cerimónia no caso da morte do rei, visto que Damboia não era soberana nem estava morta:

E por isso e outras coisas mais que vos aprouver dizer, para o bem do reino, o nkuaia não se realiza. Na capital não ressoarão esses cânticos de louvor que nos rejuvenescem. Os guerreiros não baterão os escudos do bayete, levantando a poeira pré-histórica dos nossos antepassados esquecidos. (...) Por isso, as leis que vigoraram até aqui irão vigorar, e eu serei homem de mais leis emanar quando para isso for necessário, porque o império é meu, e o poder pertence-me; (...) (p.63).

         O absurdo da guerra e o carácter violento de Ngungunhane, descontrolado pela estranha e vergonhosa doença que atinge Damboia, mostra-se também na ordem dada ao comandante para que as suas tropas ataquem e massacrem um reino vizinho:

Ide, vassalos, e apagai as tochas que por este império estiveram acesas. E para que os machope não se riam da nossa dor, tu Maguiguane, vai por essas terras espalhar a morte e a dor. Eu quero que todos, mas todos, se compadeçam com a dor que nos atacou. Ide, guerreiros, que o império vos salvaguarda, agora e depois da morte (p.63).

     Em resumo, pode-se dizer que os métodos do império de Gaza mostram semelhanças com a táctica que os portugueses aplicarão contra os povos de Moçambique. Desta maneira pode-se verificar como Ngungunhane pretende construir um ‘Mesmo’ por exclusão do ‘Outro’, em processos idênticos à da colonização portuguesa, baseado numa relação de domínio. No último capítulo, no qual o imperador desenvolve um discurso profético acerca das consequências da presença portuguesa a respeito do desenvolvimento socio-cultural do território, mostra-se o significado histórico da chegada do português em toda a sua dimensão histórica, indicando as transformações da sociedade causadas por esta intervenção ao longo do tempo:

Os nomes que vêem dos vossos antepassados esquecidos morrerão por todo o sempre, porque dar-vos-ão os nomes que bem lhes aprouver, chamando-vos merda e vocês agradecendo. Exigir-vos-ão papéis até na retrete, como se não bastasse a palavra, a palavra que vem dos nossos antepassados, a palavra que impôs ordem nestas terras sem ordem, (...) (p.118).

     Esta passagem indica ao mesmo tempo que as palavras de Ngungunhane correspondem a um dos aspectos centrais na representação da identidade pós-colonial nos romances de Mia Couto. A alienação da sociedade moçambicana em relação à sua origem africana através da perda dos nomes africanos das pessoas é um assunto que já encontrámos na personagem Marta em A Varanda do Frangipani, afirmando que os membros da sua família “já há muito perderam seus nomes africanos” (VFA: 129). No que diz respeito às consequências socio-culturais da presença dos portugueses, nota-se como o monólogo do imperador refere explicitamente o período do colonialismo, descrevendo pormenorizado o sofrimento da população indígena:

(...) Começarão a abandonar as vossas aldeias ante a vergonha e a impotência de verem as vossas filhas violadas em plena rua, os vossos pais mortos como reses, os vossos irmãos chicoteados por peidarem de medo frente ao branco que vos aviltará por todo o sempre, queimando as vossas casas, usurpando a terra que vem dos vossos antepassados, cobrando as moedas pelas palhotas que erguestes com suor, obrigando-vos a trabalhar em machambas enormes, onde dia e noite andarão como sonâmbulos, comendo jibóias e macacos, escalavrando a terra com os dedos descarnados e tirando a merda da criança do vosso patrão (p.120).

     É interessante como Khosa conseguiu traçar um paralelo entre o império de Gaza e o tempo colonial através do fictício último discurso de Ngungunhane. Por um lado esclarece que a tradição da exploração já existiu antes da chegada dos portugueses. Por outro lado faz com que a profecia chegue pela boca de Ngungunhane, um tirano igual aos portugueses, o que faz com que a significação do tempo colonial ganhe ainda maiores dimensões. A ocupação efectiva pelos portugueses aparece assim como um ponto de não-retorno, significando o início de um processo que não só conduz à construção de uma nação moçambicana, mas também traduz uma transformação irrevogável, como resume Ngungunhane na previsão dos futuros acontecimentos:

E aí o mundo terá mudado para sempre (p.121).

Apesar disso apresenta exemplos concretos como esta transformação se manifestará na sociedade moçambicana, no surgimento de uma nova classe social:

E por todo o lado, como uma doença que a todos ataca, começarão a nascer crianças com a pele da cor do mijo que expelis com agrado nas manhãs. Serão crianças da infâmia (p.119).

Ngungunhane alude aqui à posição difícil dos mulatos em Moçambique, um assunto que aparece também na obra de Mia Couto. Além disso, pode-se verificar como o afastamento da sociedade da sua origem exprime-se de maneira semelhante como em A Varanda do Frangipani e Terra Sonâmbula, visando a tensão entre o passado e a modernidade em Moçambique, aqui anunciado por Ngungunhane:

Fora das grades os vossos netos esquecer-se-ão da língua dos seus antepassados, insultarão os pais e envergonhar-se-ão das mães descalças e ocultarão as casas aos amigos. A nossa história e os nossos hábitos serão vituperados nas escolas sob o olhar atento dos homens com vestes de mulher que obrigarão as crianças a falar da minha morte e a chamarem-me criminoso e canibal (p.121).

         O processo de alienação por causa da fusão da cultura europeia com as culturas africanas mostra-se evidentemente na religião:

         (...) Mas começarão a aprender novas doutrinas que rejeitarão os espíritos, os feiticeiros e curandeiros. Todos ou quase todos aceitarão o novo pastor, mas pela noite adentro muitos irão ao curandeiro e pedirão a raiz contra as balas do inimigo, (...). (p.122).

         A profecia de Ngungunhane alude assim à convivência do passado com a modernidade em Moçambique, neste lugar na forma da coexistência da religião cristã e das tradições africanas. Apesar disso, aponta o facto de que não só se trata de uma mera aquisição de elementos da cultura europeia, mas que a situação inicial do embate das culturas imediatamente dá lugar a um processo de deslocações nas quais os africanos se apropriarão das novas doutrinas que o europeu traz para encontrar um caminho para a liberdade. Mas processo também no qual os europeus se moçambicanizaram:

(...) Outros transformar-se-ão em serpentes, entrarão no campo inimigo, estudarão os seus passos e verão o quantitativo. E esta será a nossa guerra vitoriosa contra os homens que entraram nestas terras sem autorização de ninguém. Muitos dos filhos destes homens ficarão nestas terras e aprenderão as nossas línguas e dançarão as nossas danças e casarão com as nossas mulheres à vista de toda a gente e serão os nossos irmãos de verdade (...) (idem).

         Por outro lado, esta passagem mostra que a chegada do português provocará mudanças sociais de carácter definitivo. O presságio do futuro limita-se, porém, não só ao papel do intruso no período colonial, mas mostra que a miséria profetizada por Ngungunhane não terminará com o fim do domínio do português:

Chegada a vitória tereis um preto no trono destas terras. (...) Mas não tereis chegado ainda ao tempo da vossa felicidade, seus cães, porque a maldição que abraçou estas terras, perdurará por séculos e séculos. (...) A desordem será de tal ordem que as casas mudarão de cor, passando a ter a cor da morte que se instalará nas vossas terras que terão a extensão de meses e meses de percurso (p.122-123).

         No seu último discurso Ngungunhane exprime que a libertação e independência em 1975 ainda não significarão o fim da guerra, mas uma transformação da guerra de carácter colonial em guerra civil, guerra que se estendeu até 1992. O romance faz assim uma ligação entre o tempo do império Gaza e os acontecimentos históricos dos últimos trinta anos em Moçambique. É por essa razão que Ualalapi deve ser considerado como um romance em diálogo ou em confronto com a história e com as fabricações da história, assumindo como tema central a questão do ‘Outro’ no processo político e cultural de construção de uma identidade nacional.


 


[1] Vozes Anoitecidas não faz parte deste trabalho por não ser um romance ou uma novela, mas um livro de contos.

[2] Trata-se aqui de uma citação de Akawitchi Akaporo – armas e escravos (p.31).

[3] Veja a respeito disso o capítulo “Damboia”.


 

Entrevista com Ungulani Ba Ka Khosa

A escrita está em mim



Entrevista concedida a Rogério Manjate (Fonte: http://www.maderazinco.tropical.co.mz/entrevista/ungula.htm)

Maderazinco (MD) - O Reino dos Abutres é o teu próximo livro: o que será este livro?
Ungulani Khosa
(UK)- Creio que sai ainda este ano, já devia ter saído, mas o editor pediu-me para aprofundar algumas passagens.

 Só que, quando escrevo um livro tenho o meu tempo. Eu leio, coloco-o de novo na gaveta e só 6 meses depois volto a pegá-lo. 
No reino dos abutres é uma aventura minha. Quis escrever um livro sem personagem. Pois, de maneira clássica a personagem é isto, nasceu aqui, cresceu ali, essas coisas, e tu dás perfil, dás carne. Neste, eu reportei-me ao período dos anos 80, o tempo do mono partidarismo em que nós não tínhamos personalidade "própria", éramos teleguiados; quer para formação, tudo. Ao mesmo tempo o livro retrata, isto é, a dois níveis, os campos de reeducação. Extremamente difícil, se consegui ou não, não sei. O livro que o diga.

MD - Dá para perceber que se trata de um discurso sobre o país pós independência, período sobre o qual ainda não se escreveu com muita profundidade.
UK - E acima de tudo não se ficcionou sobre os campos de reeducação. Eu estive em Niassa como professor, e então pensei: o que eu vi e vivi aqui, em 10 ou 15 anos vou escrever. Escrever sobre as vidas dessa gente nos campos de reeducação. Para já eles não tinham BI, não tinham identidade. Nada. Não eram cidadãos, eram levados para ali e não podiam sair de qualquer maneira, e da minha parte foi no sentido de dizer muito obrigado pelo que vocês disseram e partilhamos. E este livro foi um pouco difícil porque tinha de chegar ao real e ficcionar, e isso dá muito trabalho. Fiquei amarrado a ele, mas agora estou fora e já me libertei.

MD - É um discurso corrosivo, como foi o Ualalapi, com a desmistificação do Ngungunhane, a grande figura da resistência. Eu pergunto porque os anos 80 foram um momento difícil para os jovens, tu próprio dizes muitas vezes que o país não te deu nada, o Eduardo White que é da mesma geração, no seu livro As Falas de Escorpião também fala sobre o mesmo período, num discurso corrosivo anti-poder, a Frelimo...
UK - O que posso dizer é que neste livro eu pretendo dizer: meus irmãos, eu vi, assisti e vou registar, e não há nada mais. Agora se dizes corrosivo ou não...

MD - Mas o próprio período já era corrosivo...
UK - Sim, sim, eu retrato uma época em que nós não tínhamos identidade. E digo-te, este é o livro mais difícil que eu já escrevi, porque comparo este livro com pirilampos, que no meio da floresta acendem e apagam, não há uma personalidade contínua. É um animal que está assim mas que praticamente é teleguiado, e é o que aconteceu connosco...
Por isso a ausência de identidade nesse período... Identidade não, melhor dizer independência. Diziam-te: faz isto, acorda às 5 horas; e tinhas de fazer. Hoje já há mais independência, tu próprio és homem do teatro e fazes o teu trabalho. Estamos a conversar juntos e estamos numa boa, e nessa altura não era possível.

MD - O que tu achas da moçambicanidade neste período de globalização, onde tens a globalização ocidental e tens uma globalização interna.
UK - Eu vou te dizer uma coisa meu irmão, a questão para mim é simples e é complexa ao mesmo tempo. Na legislação colonial, por exemplo, nenhum indivíduo de origem asiática podia praticar o comércio dentro da cidade, só os portugueses; o resto estava na periferia. Após a independência juntámo-nos todos como moçambicanos; mas ao mesmo tempo, eu acho, que se perdeu qualquer coisinha em relação ao que tu perguntas que é a moçambicanidade. Eu não concebo que o indivíduo tenha 3 passaportes. Se eu disser que estou cansado de Moçambique, não sei onde irei. Mas há pessoas que têm 3 passaportes, por coincidência ou não, são pessoas com uma coloração de pele diferente da minha. Esta globalização traz vantagens para uns e desvantagens para outros. Mesmo tu podes estar cansado disto e dizeres vou emigrar, mas não entras em Lisboa, e se tivesses um outro tom de pele, até podias entrar. É nesse sentido que digo que nós somos permissivos. E somos permissivos até por uma outra razão: nós somos um país da costa e sempre servimos o interior; recebemos todos que lá vão e vêm, e nós não assumimos geograficamente a nossa identidade. Isto que está a acontecer no Zimbabwe, não sei se alguma vez poderia acontecer aqui; com erros e erros... erros crassos que o Mugabe está a cometer. Mas para um país que serve o interior, seria extremamente difícil assumir uma posição como a do Mugabe.

MD - E sobre a moçambicanidade na literatura, pois se discute muito sobre o que é moçambicano ou não.
UK - Não tenho muito para dizer sobre isso, porque nunca a moçambicanidade tem de ser acoplada a cor da pessoa, esse é o primeiro ponto, e segundo, é que nós somos diferentes dos países anglo-saxónicos, em que diziam tu és preto e fica no teu lugar, tens a tua universidade, estuda e estuda os teus hábitos e costumes. Mas nós fomos colonizados por Portugal em que a miscegenação foi muito forte, depois porque praticaram a assimilação e nos quiseram assimilar à imagem e semelhança deles. Mas no meio disto há oportunismos, jovens da minha idade até, que não conseguem ver o país real e sempre querem acoplar Moçambique a Portugal, isso eu não concordo e é aí que dizem que sou racista. Mas eu digo não. Vamos assumir o que é nosso. Enquanto que em Angola o fenómeno do branco, é de um branco pobre, por exemplo o pai do Luandino Vieira foi um branco engraxador, mas tu nunca viste aqui, no tempo colonial ou agora, um branco ser engraxador. E os brancos que apareceram aqui foram para o colonato do Limpopo, a uns deram fatos e casacos porque vinham do Alentejo, zona pobre e seca, e não só.

MD - O que te diz a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa)?
UK - CPLP? A mim não diz nada. Porque estamos em espaços geográficos distantes e isso não vai dar em nada porque é uma vontade política e nunca vai ser cultural...

MD - Diz-se que é mais um vínculo do neocolonialismo.
UK - Eu não diria neocolonialismo. Mas para mim a CPLP é Portugal e Brasil

MD - Mas um ministro brasileiro acaba de dizer que a CPLP não faz parte dos programas e interesses do Brasil.
UK - Obviamente porque o Brasil está no Mercosur, nós na SADC, mas Portugal quer manter a chamada portugalidade, e olha para a CPLP; e inclusive olha para esta história que eu acho que é uma farsa... O prémio Camões. Por exemplo no Brasil há dezenas de escritores premiáveis para o Camões, mas como é uma política de rotatividade, tu notas que é forçado por parte de Portugal, tentando preservar a língua portuguesa. E nem precisa, porque veja só, nós estamos a falar em português.
Quanto a língua portuguesa Moçambique antes de 75 tinha, sei lá, 10% da população a falar português e depois disso, quando os portugueses abandonaram o país, quase 50% fala hoje... ouve mais interesse na língua portuguesa por parte dos moçambicanos em 27 anos do que em 500 anos dos portugueses.

MD -Porque consideras A Orgia dos Loucos melhor que Ualalapi, contrariamente à opinião dos leitores e críticos?
UK - Ualalapi para mim... (e já agora, está entre os cem melhores livros de África, que é uma satisfação para mim e ao mesmo tempo uma honra para Moçambique.) Mas eu olho para A Orgia dos Loucos como sendo o melhor, porque tentei levar a técnica de escrita às ultimas consequências, então é um livro que para mim é tecnicamente superior a Ualalapi. O que é difícil sendo um livro de contos, apesar de Ualalapi serem contos, mas contínuos. 

MD - Mas a literatura não é só feita de técnica, vale também pelos conteúdos e do prazer que cria ao leitor.
UK - Não só usei a técnica, eu juntei a realidade, falo da burocracia, e mais, lembras-te dos tempos em que se davam enxoval às mães que tinham filhos no dia 1 de Junho, 1 de Janeiro? o esforço que elas faziam para que os bebés nascessem nesse dia? É a realidade, jogada tecnicamente. Mas um livro de contos só nos EUA e poucos outros países tem importância. E para mim esse é o livro de eleição.

MD - E por que tu dizes que a poesia é o máximo e achas que nunca irias conseguir escrever um poema?
UK - Poesia! Poesia é uma arte maior. O problema é que muita gente, e eu critico, pensa que poesia é cortar palavras e arrumá-las. Mas a poesia tem qualquer coisa de transcendental em que tu encontras... por exemplo, o Carlos Drummond de Andrade, só para dizer o que era a ditadura no Brasil diz, há uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho há uma pedra... acabou. E tu ali já vês a ditadura. A poesia consegue com imagens, com pequenas palavras; e não é qualquer um que pode chegar lá. Por isso que eu nunca escrevi, fui sempre um copista, para as namoradas, essas coisas. 

MD - E tu estás contra esta mania de chamar o romance o género maior comparado ao conto e a poesia.
UK - Na minha maneira de pensar são as indústrias editoriais que promovem isso. Escreves um livro de 90 ou 120 páginas, o editor diz: aumenta para 200 páginas, porque quer vender. Mas a poesia ainda se mantém, 500 exemplares, enquanto que os mais prostitutos são os que fazem romances e contos porque devem estar do lado do editor. Mas aquele que aceita o poeta, aceita-o na sua totalidade. 

MD - Tu sempre disseste que és um escritor bissexto, e passa muito tempo neste momento sem trabalho novo, então se estivesses inspirado e com material produzido... 
UK - Mas eu sou dos escritores que escrevem, tenho uma coluna semanal, dou a minha cara em relação a realidade do país, política e outros assuntos. Mas em termo de publicação sou bissexto. Tenho de ruminar. Eu tenho o meu tempo. Não quero entrar na indústria editorial, em que dizem daqui a dois anos tens de tirar um livro. Eu estou num país pobre, tenho de ver as condições da minha vida, minha família. Não sou do tempo do Mallarmé em que viviam na sarjeta e não tinham o que comer. Não estou para ser mendigo para dizer que sou poeta. Já passou isso, era no século 19. A literatura dá não me dinheiro. Olha para os músicos, alguns querem viver da música, no nosso país é impossível e eles têm um handicap, a formação académica que é muita baixa, não têm outro emprego e não se safam. Ou um individuo cria o seu cenário e pode trabalhar ou não...

MD - E tu afirmaste que a literatura é o fim. 
UK - É sempre o fim. Mas para a literatura ser o fim para mim, tenho de criar todas as condições. Mas, eu viver na sarjeta e dizer que a literatura é o fim, não. Para mim é o objectivo final, mas para esse objectivo final que me persegue todos os dias, eu tenho de criar condições. Se eu digo agora vou jantar, sei que vou. 

MD - Mas olhando para a tua vida actual, assumes que estás estável, e que estás em condições para partir para esse fim?
UK - Neste momento estou em condições. Nos próximos anos tu vais ver. Eu estou a partir. E parto com uma outra coisa, aquilo que o Pepetela dizia, os intes, intas, entas - eu estou nos quarenta, e já posso dizer eu vivi isto, vi isto, sei isto. Mesmo o próprio Pepetela, dando um exemplo, depois dos quarenta tinha as coisas todas e tem outra base.

MD - Então vem um Khossa mais forte, ainda bem. Mas esse discurso das condições de vida, claro que é incontestável, mas pode ser um subterfúgio.
UK - Acho que não é por ser ou não subterfúgio. Eu sou cronista, semanalmente tenho a minha coluna. Eu escrevo. Entrei para a intervenção social há mais de 7 anos. Não é subterfúgio porque a escrita está em mim. Mas o problema é esta mania que existe neste país, os escritores de um só livro são negados. Mas há escritores que se realizam num só livro, onde ele esgota tudo. Por isso agora andam a levantar essa polémica em volta do Luís Bernardo Honwana, que aos 19 anos escreveu um livro belíssimo, Nós Matámos o Cão Tinhoso, e vêm com essa história de plágio, e há outra coisa, porque é um preto que escreveu com aquela idade nos anos 60; e é um livro de marca, por mais que ele não escreva mais nada. Não é um subterfúgio, porque ele fez mais coisas na vida. Mas no meu caso não, é que não consigo viver sem escrever.

MD - Quando e como foi que sentiu a necessidade ou vontade escrever ?
UK - Não te posso precisar, mas acima de tudo a necessidade ou vontade de escrever, surgiu através da leitura. Aquilo que o Rolland Barthes sempre disse, eu leio para escrever e não escrevo para ler. Portanto a leitura foi fundamental. A partir de 79/80, nessa altura os livros que tínhamos aqui na praça, pertenciam às bibliotecas e eram poucos livros. Grande parte dos que enchiam as livrarias então existentes eram livros de carácter revolucionário. E nessa altura recorríamos às bibliotecas, e uma das mais recheadas, era na qual eu trabalhava, a do Ministério da Educação. Tinha uma grande colecção de literatura americana - Hemingway, Steinback, Fitzgerald - e também a outra grande literatura, a Russa - Tolstoi, Dostoievski, Tchekov, Pushkini - toda gama de autores clássicos.

MD - Então foi aí onde tiveste a maior influência para escrita
U.K - Sim, comecei por ler atentamente os diálogos do Hemingway, mas depois descobri um outro americano, o William Faulkner; aí eu vi que este homem é um homem que faz e vira tudo, principalmente em O Som e a Fúria, onde tu nunca sabes se está no presente ou no futuro. E depois disso surgiu-me a literatura latino-americana...

MD - E como funcionam essas influências na tua escrita? 
UK - E depois inclinei-me para os Hispano-americanos porque percebi que eles podiam falar do feitiço e toda uma realidade semelhante e extremamente próxima à nossa. E comecei a entrar para o mundo Garcia Marquez, Llosa etc., e todo aquele mundo mágico tinha uma proximidade com o meu mundo, o meu real. E é uma realidade preocupada em contar histórias. E não se preocupa com os dogmas, os racionalismos - onde é impossível alguém nascer com uma cauda de lagarto. E essas são as coisas que a gente ouve aqui na nossa terra. 

MD - E a literatura africana?
UK - Também li muito autores africanos tais como Sembéne Ousmane, Mongo Beti, Chinua Achebe, Ngugi Wa Thiong'o e outros. Mas o que eu senti é que a geração desses escritores tinha um quê de um realismo político. Porque o neo-colonialismo já estava a entrar e eles rebelavam-se, e havia um contraponto com a realidade socialista. Mas os latino-americanos já ultrapassavam isso, vindo da história e entrando no mágico. Sim, houve o Amos Tutuola, autor de O Bebedor de Vinho de Palma, e acredito que seja da mesma escola do Mia, do Luandino - mas ele na língua inglesa, pois ele perverte o inglês, pelo menos sente-se isso na tradução.

MD - Como vês a literatura moçambicana?
UK - Houve diversas fases; a de procura de identidade, em que o Craveirinha para mim é o maior, depois foi o elogio a pátria sem o mínimo de técnica, depois há a fase de contraponto a essa geração.

MD - Que é a tua, do Filimone, Patraquim, Armando, White, Mia...
UK - Sim. Mas depois veio um período que foi mais fraco, não digo que houve falta de talento. Aconteceu que antes tínhamos um país de partido único, as bichas, e isso terminou. E isso aconteceu no Brasil, quando terminou a ditadura, os escritores ficaram desorientados. E agora o que vou escrever se sempre escrevi contra? E a geração que aparece aí, até com muito talento ok, mas pouca leitura... e o país tinha mudado; então aí era preciso ter o tempo de ressaca, e os escritores ficaram sete, oito anos à deriva. E os que nascem dentro desse mesmo período ainda não se consolidaram. Escrever sobre o fascismo é muito fácil. Escrever sobre este mundo capitalista, selvagem, é extremamente difícil.

MD - Disseste numa entrevista recente que o que se produzia agora era medíocre.
UK - Eu não falo de mediocridade, mas digo que o que se produz agora carece de leitura, primeiro ponto; segundo, é que Maputo é o epicentro, e todo jovem está aqui. Tu vais para fora, vês que os jovens não têm referências nenhumas. E quando falo que há mediocridade neste país, não me estou a fixar a Maputo, porque Maputo chega a ser um centro privilegiado, mas estou a pensar em Chokwé, Lichinga, Nampula, Quelimane, e tu pegas num texto, e vês que um país assim não vai a sítio nenhum

MD - E em relação às obras que estão a sair ultimamente?
UK - As obras estão a sair e bem, vocês estão a ocupar um espaço que vos é devido. Só que, enquanto na minha geração os críticos literários estavam no tempo de formação e eles pegavam em nós e faziam ensaios sobre os nossos textos, hoje são doutores e já não vão às páginas dos jornais, estão preocupados em dar aulas e com outras coisas. E estes críticos ao invés de pegarem em Craveirinha e outros consagrados, pegavam em nós que estávamos a nascer... E agora entramos em guerra entre nós escritores a dizer porque tu não falas de mim? Mas eu sou escritor, quem tem de falar é o doutor que estudou literatura, não eu. No nosso tempo havia crítica e é isso o que as pessoas não entendem. 

MD - Vocês são uns privilegiados. Nesse tempo havia uma casa da literatura a ser edificada, agora desmoronou tudo, nem o papel da AEMO se faz sentir. Mas há ultimamente discursos dos escritores mais velhos pouco construtivos, na tua última entrevista, disseste categoricamente que tudo que se produzia era medíocre, e isso confundiu as pessoas. Por exemplo, numa outra disseste que entregaste ao Patraquim a primeira versão do Ualalapi e ele chegou a dizer-te que era muito fraco e tinhas de reescrever tudo, mas hoje já não há dessas pessoas, com os mesmos gestos para os jovens escritores...
UK - Não, não foi Ualalapi, foi o meu primeiro livro, A Confissão, que era uma série de histórias que ainda o tenho guardado. O Patraquim leu e disse tudo, eu até chorei. Depois dali é que fiz a minha aventura. Não digas que eu não passei mal também, o segundo conto que escrevi, "Dirce Minha Deusa", O Calane da Silva pura e simplesmente não leu, atirou-me à cara e disse que o jornal era para os consagrados e que iriam abrir uma página para putos. Eu chorei e disse ao menos que ele lesse e dissesse que é uma merda. E quando me revolto contra a malta jovem, eles compreendem mal. O que eu acho é que a malta jovem tem de ler mais e nunca se refugiar no sentido de que o livro é caro; e é, mas as bibliotecas não são caras e nós temos bibliotecas. Posso não ter a minha privada. Lembro-me da autobiografia do Mandela estava a 800 contos, acima do salário mínimo, e a gente se emprestava e todos nós lemos. É ao nível da pesquisa que eu falo. E os grandes privilegiados só são daqui, vais para fora de Maputo não há uma única biblioteca.

MD - Apesar de a literatura ser um acto individual, veja que além desses problemas, no vosso tempo havia tertúlias, críticos, e hoje não há, e nem contacto com vocês de uma geração anterior com os novos.
UK - Nada. E hoje ficamos numa situação em que sai um livro e ninguém fala. Noutros países, há recensões críticas, de editores... nem editores tens neste país, distribuidores idem. Mas tens indivíduos que podem falar, com formação em literatura e deviam escrever para os jornais. Acho que a crítica deve funcionar, falando dos livros que saem, porque neste momento há muitos talentos. Agora se alguém me pede a minha opinião: tenho as minhas leituras, e a minha escrita obedece à essas leituras, então não posso chegar e dizer este sim este não. Por exemplo para mim a poesia é só o que me entra, e eu posso dizer que gosto disto ou daquilo, mas é muito pessoal.

MD - Qual pensas que é a utilidade da literatura, por exemplo num país como o nosso, ou em Africa onde as pessoas têm tantos problemas.
UK - A literatura teve o seu lado positivo nos anos sessenta, na Europa, na época dos Sartre, Gide, Camus, e outros, em que eles intervinham na sociedade, mas hoje tem a sua força, mas a mim não ilude porque não creio que a literatura vá mudar os nossos mundos. Torna-se o nosso campo lúdico, o organicamente instalado. Por exemplo a Natália Correia dizia: A poesia é para se comer. Mas neste nosso espaço dou um certo papel a uma certa intervenção social acoplada à escrita.

MD - Qual é a tua relação com a crítica?
UK - É boa e eu devo ser dos escritores mais felizes. Devo ser dos que menos insultos recebi e quando aparece alguma crítica negativa, ou um insulto por aí, eu digo finalmente alguém fala mal de mim. Eu sempre recebi elogios. Há teses por aí. 

MD - Nos teus discursos ultimamente fica subjacente que depois de Ualalapi não mais nenhum outro livro em Moçambique
UK - Não, não, há livros e há grandes livros. O que acontece com Ualalapi, modéstia a parte, é que entrou na mente das pessoas. Eu era professor de história, fui a tradição oral e desmistifiquei o Ngungunhane. E estou me marimbando se faço outro livro melhor do que esse ou não.

MD - Mas então não há nenhuma guerra com outros escritores... questionas a obra do Mia, das mulheres escritoras...
UK - Não, eu falei com o Mia, e disse-lhe que dei uma entrevista, e provavelmente a pessoa que me entrevistou não entendeu. E eu disse-lhe, tu não tens um livro de proa, porque tudo o que estás a escrever circunscreve-se ao mesmo universo, que é o universo da palavra. Tanto Terra Sonâmbula, e que está entre os cem melhores livros de África, e podia ser outro A Varanda de Frangipani por exemplo... e isso no universo lusófono, acontece com o Luandino e a fonte deles todos, o Guimarães Rosa...

MD - Mas o Rosa teve dois livros extraordinários, Sagarana e Grande Sertão: Veredas, e são marcas da literatura brasileira...
UK - Mas são livros em que o universo é o da palavra. E agora, ou eles mudam porque aquele universo termina. 

MD - Mas o escritor pode ter valor no conjunto da obra, ou então um ou dois títulos, veja-se o G. Rosa, o Garcia Marquez, têm dois livros consagrados e também o conjunto de obra é extraordinário...
UK - Mas é o que digo, quando eu digo que o Mia não tem um livro de proa, mas vale pelo conjunto, e não pela singularidade.

Agosto de 2002