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UANHENGA XITU - MESTRE TAMODA

Agostinho André Mendes de Carvalho é o nome de Uanhenga Xitu, nasceu em Calomboloca, Icolo e Bengo, a 29 de Agosto de 1924. Fez os seus estudos primários e secundários em Luanda. Fez o curso de enfermagem em Luanda, profissão que exerceu durante muitos anos deslocando-se por todo o país, que conhece bem. Fez estudos em Ciências Políticas na Alemanha (Ex-RDA)

Em 1959 foi preso, tendo feito parte do chamado �Processo dos 50� e enviado para o Tarrafal onde permaneceu de 1962 a 1970.

" Toma atenção, Kahima no que te vou dizer, porque basta trocar a ordem de um mando para tudo se gorar... Esta noite levas pós para espalhá-los, um poucochinho de cada vez, em todos os cruzamentos do caminho onde passarão os jogadores e a assistência. Vais benzer todas as encruzilhadas!... Em todo os trajecto, tanto na ida como na volta, não deixes que alguém te passe à esquerda. Evita!... Depois daquela nascente de Kibulukutu, em direcção à primeira choça que encontrares, isto é, antes da baixa de Malombe, enterras esta dibunda. Pega, fecha a mão!... Muita atenção, ouvis-te?... Quando cantar o primeiro galo, tens de estar no campo da bola. E no centro, no lugar da coroa onde se assenta a bola, enterras isso. Pega, fecha a mão!... Depois de enterrares, alisa o lugar, de uma maneira para ninguém desconfiar... Depois desta operação, dá oito voltas ao campo; na nona, passas com este embrulho. Pega, fecha a mão! Nove vezes entre as pernas. Regressas... Por volta das onze horas da manhã, portanto, amanhã dia do jogo trazes-me todos os jogadores que farão parte do desafio...". In: Uanhenga Xitu. «Mestre Tamoda». Luanda, Editorial Nzila, 2001, p. 56, 57.

Após a independência foi Membro do Conselho da Revolução, Comissário (Governador) da Província de Luanda, Ministro da Saúde de Angola, Embaixador de Angola na República da Polónia, Actualmente é Deputado à Assembleia Nacional pela Bancada do MPLA, tendo sido membro do Comité Central do MPLA até 1998. É membro da União dos Escritores Angolanos.

Sobre as personagens que recria nas suas obras, Uanhenga Xitu diz: "As personagens do meu mundo ficcional, a princípio apenas imaginadas, vão-se autocriando, ganham rosto próprio e, mesmo quando lhes dou mais atenção, tornam-se tão autónomas no interior da minha narrativa, e nem sempre o destino que lhes traçara acabará por se cumprir. Nunca soube, antecipadamente, o fim que cada um teria. O Kahitu, que era tão dócil na redacção das suas cartas, não conseguira convencer... Nunca o tive como modelo acabado."

Foi na cadeia que começou a escrever os seus contos, tendo para isso sido aconselhado por alguns dos seus colegas e amigos de prisão como António Cardoso e António Jacinto.

Suas obras publicadas são: Meu Discurso (1974); Mestre Tamoda (1974); Bola Com feitiço (1974); Manana (1974); Vozes na Sanzala - Kahitu (1976); Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem (1980);Os Discursos de Mestra Tamoda (1984); O Ministro (1989); Cultos Especiais (1997), (Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem (reedição 2002).

"Os Discursos de Mestre Tamoda" é talvez a sua obra mais referenciada e com mais edições. A respeito deste livro o próprio autor diz: "A obra publicada de Mestre Tamoda, como algumas vezes expliquei aos leitores, foi escrita na cadeia, onde a vigilância e busca dos guardas e da parte de outras entidades prisionais era constante. Eu e outros companheiros vimos confiscados, além da correspondência familiar e documentos, trabalhos literários de grande valor que nunca mais recuperámos e, para voltar a reproduzi-los tal e qual, será difícil..." Fonte: J.A

Sobre esta obra Luis Kandjimbo, um dos críticos literários angolanos, escreveu: �Tamoda, simbolizando, o mimetismo cabotino, é uma personagem típica do mundo que através da exibição de maneirismos expõe à hilaridade o uso da língua portuguesa perante uma audiência de jovens e crianças, transformando-se em modelo, no que diz respeito ao emprego e manipulação de vocabulários portugueses... Na qualidade de escritor com um envolvimento directo na actividade política, pois é deputado à Assembleia Nacional, na sua bibliografia destacam - se "O Ministro" e "Cultos Especiais" duas obras consagradas à crítica social, ao culto à personalidade e a outros comportamentos dos políticos. In: Luis Kandjimbo. Breve História da ficção narrativa Angolana nos últimos 50 anos.

Fernando Mourão aponta que Uanhenga Xitu em Mestre Tamoda, �põe em evidência o conflito, através de uma linguagem plena de humor, retratando uma situação ao mesmo tempo trágica e cómica� In: O Problema da Autonomia e da Denominação da Literaturas Angolana. Paris, Fondation Calouste Gulbenkian/Centre Culturel Portugais, 1985, p.124.

« O novo intelectual, no meio de uma sanzala em que quase todos os seus habitantes falavam quimbundo e só em casos especiais usavam o português, achou-se uma sumidade da língua de Camões. Ao dicionário apelidava: o ndunda - aliás, termo também aplicado, em quimbundo, a qualquer livro volumoso e de consulta. Nas reuniões em que estivesse com os seus contemporâneos bundava, sem regra, palavras caras e difíceis de serem compreendidas, mesmo por aqueles que sabiam mais do que ele e que eram portadores de algumas habilitações literárias. Quando em conversa com moças analfabetas e que mal pronunciavam uma palavra em português, o «literato», de quando em vez lozava os seus putos. Porém, alguns deles nem constavam dos dicionários da época." In: Uanhenga Xitu. «Mestre Tamoda». Luanda, Editorial Nzila, 2001, p.18.

Salvato Trigo diz sobre este escritor: "Em síntese: estamos, portanto, em face de um escritor, que no dizer avisado de Russell Hamilton, «é inequivocamente um dos principais modernizadores da literatura angolana.» Sem querermos contrariar minimamente a opinião daquele crítico, talvez nós preferíssemos dizer que U. Xitu é «inequivocamente um dos maiores "africanizadores" da literatura angolana» [...]. Uanhenga Xitu vai continuar a escrever [...] polifonicamente, como o tem feito até aqui, dando à literatura angolana cada vez mais o sabor da oratura. Só assim o texto viverá, uma vez que se alicerça numa expressão vivificante, qual é a do griotismo literário, que continuará a ser o traço distintivo das literaturas africanas modernas. "Da oratura à literatura"  "há-de continuar a ser o trajecto e o objectivo da escrita de Uanhenga Xitu que se recusa ser, literariamente, Agostinho Mendes de Carvalho." In: Salvato Trigo. Uanhenga Xitu. Da oratura à literatura. Cadernos de Literatura, 12, 1982.

(Fonte: Site da União de Escritores Angolanos)