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APONTAMENTOS SOBRE A POESIA CABOVERDIANA*

 

Amílcar Cabral

                          "Não me doi meu particular.

                          Peno cilícios da comunidade.

                          Água dum rio doce, entrei no mar

                         (Miguel Torga, "Cântico do homem")                                      

 

I

Quando se debruça sobre o conteúdo da poesia caboverdiana, em busca do seu valor real, duas fases, nitidamente distintas, se mostram evidentes: a anterior ao aparecimento da revista Claridade, e a que começa com este acontecimento literário. Tão distintas são essas duas fases, que Osório de Oliveira não hesita em afirmar: "só agora (isto é, com Claridade) se pode falar da Literatura Cabo-verdiana".

Significará isso que tudo quanto foi escrito antes das produções dos colaboradores da "Claridade" não tem valor literário? Que só merece ser considerado como Poesia, na verdadeira acepção do termo, o que escreveram os poetas da "Claridade" e os que se lhes seguiram?

Postas estas interrogações, está-se, necessariamente, perante o discutidíssimo problema da definição de Poesia, como expressão artística. Não constitui objeto deste apontamento abordar tal problema. Todavia, impõe-se uma tomada de posição, para que, quando menos, se possa ser coerente nas afirmações que tiverem de ser feitas.

A poesia, como qualquer manifestação artística e apesar de toda a característica individual, emanente da personalidade do Poeta, é necessariamente um produto do meio em que tem expressão. Quer dizer: por maior que seja a influência do próprio indivíduo sobre a obra que produz, esta é sempre, em última análise, um produto do complexo social em que foi gerada. Aliás, esta afirmação não passa dum lugar comum em todas as controvérsias referentes aos problemas da Arte, na actualidade.

Ao falar de controvérsias, não se esquece que não rareiam as vozes discordantes que se levantam para defender a exclusiva influência do complexo individual na manifestação artística. Ao referir este facto, está-se implicitamente perante a não menos discutida questão de se saber se a arte deve ser "dependente" ou "independente", isto é, presente ou alheia aos problemas sociais do meio em que é produzida; ou, noutras palavras muito vulgarizadas actualmente: se a arte deve ser "interessada" ou "desinteressada".

Assim, enquanto vai crescendo, dia a dia, o conjunto daqueles que pretendem ou querem uma arte com função social, cerram-se as fileiras daqueles que, teimosamente, arvoram a esfarrapada bandeira duma arte absolutamente independente, da chamada "arte pela arte". E, ao qualificar-se de esfarrapada a bandeira dos que defendem uma arte "desinteressada", está-se, ainda que de maneira implícita, tomando posição.

É que, na realidade, parece - e com este ponto de vista não se está metendo nenhuma lança em África - que, a qualquer das questões postas atrás: arte função do meio? arte com função social? - só pode ser dada uma resposta afirmativa. Não é possível considerar a arte (a Poesia, no caso presente) independentemente do homem-ser-social. A arte é e tem de ser, para que mereça tal designação, um produto do homem para homens.

A Poesia tem as suas raízes (passe o termo) mergulhadas nas condições socioeconômicas em que é criada. Note-se que não se afirma ser ela uma função exclusiva dessas condições. Não é, nem poderia ser, alheia a influência de outra origem, como a moral, a religião, as ciências, a filosofia, etc...

Quanto à sua função social, parece que o que se poderá discutir é qual a natureza da função social de determinada obra poética e, não, se essa função existe. Quer dizer: há uma acção recíproca entre o complexo social e a obra poética, admitindo que esta tenha algum mérito. O que interessa determinar é se tal obra constitui um bem ou um mal para aquele complexo, isto é, se o serve ou se o trai.

A evolução das sociedades humanas está na base de toda a evolução literária. Mesmo quando estes dois fenómenos se apresentam desarmónicos ou antagónicos, isto significa apenas que não se desenvolvem concomitantemente. A evolução das sociedades humanas é, por sua vez, uma função dos factores determinantes da estructura económica em que aquelas assentam.

 

II

A Poesia Cabo-Verdiana, como qualquer outra, só poderá ser compreendida se considerada em relação ao ambiente material e humano vivido pelo Poeta. Assim, seria conveniente determinar quais as características do meio cabo-verdiano que estiveram na base das manifestações das duas poesias atrás referidas: a anterior à "Claridade" e a que começa com esta revista.

A primeira, representada por Eugénio Tavares, José Lopes, Pedro Cardoso, Januário Leite, etc., caracteriza-se por um desprendimento quase total do ambiente, sublimando-se numa expressão poética que, excepção feita a algumas obras de E. Tavares e P. Cardoso, nada tem de comum com a terra e o povo do Arquipélago. Enquanto a poesia de J. Leite, por exemplo, oferece, nos seus sonetos, a expressão da reacção puramente sentimental, do Poeta, perante fenómenos que a ele e só a ele interessam, a de José Lopes traduz, mais do que qualquer outra, o cunho de cultura clássica, desligado do meio, que caracteriza a formação ideológica dos Poetas anteriores à "Claridade".

Aliás, é precisamente nesse formação, adquirida principalmente no Seminário de S. Nicolau, como o faz notar Osório de Oliveira, ou por um louvável esforço pessoal, que reside a razão de ser das características da Poesia anterior à "Claridade". Possuidores de uma cultura clássica, que em alguns atinge um grau verdadeiramente elevado, os Poetas da geração em referência esquecem a terra e o povo. De olhos fixos no que aprenderam nos livros e que talvez suponham insuperável, pouco mais conseguem do que imitar os autores seus conhecidos, produzindo uma Poesia em que o amor, o sofrimento pessoalíssimo, a exaltação patriótica e o saudosismo, são traços comuns.

Não se nega o mérito dalgumas das suas obras. Alguns sonetos de Januário Leite, composições de E. Tavares, esta ou aquela obra de J. Lopes e P. Cardoso, são - há que reconhecê-lo - de valor incontestável. Pode-se mesmo afirmar que em E. Tavares (ao cantar o ambiente bravense) e P. Cardoso (ao traduzir, do crioulo, quadras populares do Fogo) encontra-se já algo do que, mais tarde, se tornaria realidade nos Poetas da nova geração: uma comunhão íntima entre o Poeta e o seu mundo.

É ainda a influência da cultura clássica que caracteriza o aspecto formal da Poesia em referência: o respeito sagrado à métrica, a confrangedora submissão às algemas da rima.

Mas, como descortinar a influência do meio socioeconómico sobre estes artistas? Atente-se nas seguintes condições:

O povo, em geral, vive alheio à cultura e às manifestações artísticas. O Seminário, em S. Nicolau, por poucos pode ser frequentado. Ministra-se nele uma cultura clássica, à qual se ligam fortemente os que tiveram a felicidade de recebê-la. Tão forte é o elo, que os seminaristas (ou os autodidactas) de talento, encontrando abertas as portas duma vida onde podem desfrutar de posições de relevo, ignoram ou esquecem as realidades que os cercam. Opera-se neles a supremacia de tudo quanto é meramente filosófico, religioso ou moral, sobre o económico.

Melhor: é a própria condição económica em que vivem que facilita aquele alheamento das realidades cabo-verdianas. A terra e o povo estão distantes. Este, nas letras da Morna, canta os seus sofrimentos e amores, enquanto os poetas compõem sonetos perfeitos para exaltar um sentimento qualquer, as tranças e os olhos da hegéria, as belezas da Grécia ou uma data célebre da História

III

Bruscamente, porém, opera-se a transformação. A Poesia Cabo-Verdiana abre os olhos, descobre-se a si própria, - e é o romper duma nova aurora. É a claridade que surge, dando forma às coisas reais, apontando o mar, as rochas escalvadas, o povo a debater-se nas crises, a luta do cabo-verdiano "anónimo", enfim, a terra e o povo de Cabo Verde. Por isso, o caracter intencional - e felizmente intencional - do nome da revista que revela essa profunda modificação na Poesia Cabo-Verdiana: Claridade.

Aliás Jorge Barbosa, Oswaldo Alcantara (Baltazar Lopes), Corsino de Azevedo, Manuel Lopes, Teixeira de Sousa, Jaime de Figueiredo, etc, são os pioneiros do acontecimento.

Os poetas, agora, são homens-comuns que caminham de mãos dadas com o povo, e de pés fincados na terra. Cabo Verde não é o sonhado jardim hesperitano, mas, sim, o "Arquipélago" e o "Ambiente", onde as árvores morrem de sede, os homens de fome - e a esperança nunca morre. O mar já não tem sereias e as ondas não beijam a praia. O mar é a estrada da libertação e da saudade, e o marulhar das vagas é a tentação constante, a lembrança permanente do "desespero de querer partir e de ter de ficar". Até o caminho qualquer, "amassado pelo gado que a seca matou", tem vida, assim como "os coqueiros esguios" e o "céu azul e ardente que não promete chuva".

A terra, "a terra mártir" - é a Mamã que "alimenta" os filhos "com a ternura das suas entranhas"; que não morreu, mas jaz adormecida "numa migalha de terra no meio do mar".

A voz do Poeta, agora, é a voz da própria terra, do próprio povo, da própria realidade cabo-verdiana.

Como se operou tão profunda transformação na Poesia de Cabo Verde? Tal modificação corresponderá a uma evolução do complexo económico-social? Atente-se nas seguintes condições:

O povo, na generalidade, continua alheio a toda a manifestação artística e cultural. A cultura é ainda o apanágio dum sector restrito da sociedade cabo-verdiana. Mas é precisamente neste sector que se operou uma modificação.

O Liceu, com a democratização do ensino, independente da religião, trouxe maiores facilidades de acesso à Cultura. Aumentou, na fileira dos intelectuais, o número de elementos provenientes da chamada "gente humilde". Além disso, o fulcro da intelectualidade cabo-verdiana, passando de S. Nicolau para a cidade do Mindelo, à beira do Porto Grande, encontrou-se em contacto mais amplo com o Mundo, onde se operava, dia a dia, a evolução da mentalidade humana, concretizando-se as aspirações do homem.

É de admitir-se que tal transformação resultou principalmente desse contacto, em essencial com a literatura metropolitana e brasileira. Na realidade, as primeiras produções da Claridade, manifestam uma certa influência da corrente literária que caracterizou o Presencismo e da poesia brasileira de então. Influência que se limitou a mudar as directrizes da poesia cabo-verdiana. O Poeta, em vez de olhar para as nuvens, devia buscar o sentido da sua poesia na realidade em que vive.

Infelizmente, a primeira fase da Claridade foi um relâmpago. Mas foi o suficiente para a nova geração de Poetas cabo-verdianos poder ver claro, e compreender que a Poesia de Cabo Verde só poderia ter personalidade, possuir um real valor, se, sem intenção premeditada, fosse "os olhos e a boca" do Arquipélago das secas.

Anos volvidos, aparece a "Certeza", folha infelizmente efémera, fundada por estudantes do Liceu. Nela, Arnaldo França, Nuno Miranda, Tomaz Martins, G. Rocheteau e outros jovens, ensaiam uma nova mensagem e mostram que compreenderam a dos Poetas da Claridade. Mas a "Certeza" não é apenas uma compreensão da aaa Claridade.

O seus Poetas - o contacto com o Mundo é cada vez maior - sentem e sabem que, para além da realidade cabo-verdiana, existe uma realidade humana, de que não podem alhear-se. Sentem e sabem que não é apenas em Cabo Verde que "há gritos lancinantes pela noite silenciosa" e "homens vagabundos" que "fitam estrelas que a madrugada esculpiu". E dizem, querem dizer "um canto... que cruze nos mares mais distantes e entre nos corações dos homens... um canto com contornos de paz e relevos de esperança". De esperança.

 IV

 Mas a evolução da Poesia Cabo-Verdiana não pode parar. Ela tem de transcender a "resignação" e a "esperança". A "insularidade total" e as secas não bastam para justificar uma estagnação perene.

As mensagens da Claridade e da Certeza têm de ser transcendidas. O sonho de evasão, o desejo de "querer partir", não pode eternizar-se. O sonho tem de ser outro, e aos Poetas - os que continuam de mãos dadas com o povo, de pés fincados na terra e participando no drama comum - compete cantá-lo. O cabo-verdiano, de olhos bem abertos, compreenderá o seu próprio sonho, descobrirá a sua própria voz, na mensagem dos Poetas.

Parece que António Nunes e Aguinaldo Fonseca estão na vanguarda dessa nova Poesia. Não se conformam com a estagnação. A prisão não está no Mar.

O primeiro, auscultando a terra e o povo, sonha com um "Amanhã" diferente, que antevê possível. E descreve a alteração que há de operar-se: "Em vez dos campos sem nada..." E profetiza, para a terra cabo-verdiana, a "vivificação da Vida".

O segundo exprime, em toda a sua grandeza, o "naufrágio em terra" do povo a que pertence. Retrata os "homens calados" sofrendo a "dor da Terra-Mãe...num abandono de não ter remédio". Dos homens, "presos na cadeia da desesperança". E o seu sonho, não é de "querer partir": é de

 

"Outra terra dentro da nossa terra".

 

NOTA

*Apareceu pela primeira vez em Boletim de Propaganda e Informação III, 28 (01/01/1952). Reproduzido em Obras Escolhidas de Amílcar Cabral, Vol. I: A Arma da Teoria - Unidade e Luta pela editora Seara Nova, 1976, p. 25-29.

 

Poetas de Cabo Verde

ANTÓNIO PEDRO
ARMÊNIO VIEIRA
CORSINO FORTES
DANIEL FELIPE
GABRIEL MARIANO
LUÍS ROMANO
ONÉSIMO SILVEIRA
TEOBALDO VIRGÍNIO
TERÊNCIO ANAHORY

 

ANTÓNIO PEDRO

“Se houve engano de olhos...”

 

Se houve engano de olhos,

Nunca esta alma minha

Se levou dos olhos,

Bem amada minha.

 

Olhos de alma, claros

Pela tua graça

E onde o teu sorriso

Namorado passa.

 

- Meu sorriso, aberto,

Porque é derradeiro,

Este foi, decerto,

Meu amor primeiro.

..............

Ode ao Almada Negreiros

 

Maravilhosa plástica das coisas!

Tudo no seu lugar, as cores e os olhos

Lá no lugar de cada coisa, a vê-la

Com seu aspecto natural e próprio.

 

 

(Tudo para cada um, na variedade

Dos olhos de quem se admite na paisagem,

Ou como espectador,

Ou como actor,

Ambas as coisas uma, no concerto

Magnífico do mundo.)

 

...Sem memória, ou com memória a sê-la

Nos olhos a olhar completamente

Sem nenhum pensamento reservado:

-                  - Olhos dados a cada coisa, ou tida

-                  Cada coisa p’los olhos que se deram!...

 

Vaivém de tudo e nada, desse nada

Profético de tudo - e o tudo enorme

De cada nada afeiçoado e olhado

À feição de quem olha possuindo

E possuído, na maravilhosa

Cópula grande dos Artistas todos...

 

Maravilha de ter-se e ter-se dado,

Em cada olhar olhado,

E em cada cor e em cada flor mantido,

Bolindo e vendo

O sonho de se ir tendo

Realizado.

 

 

ARMÊNIO VIEIRA

 

Mar

Mar! Mar!
Mar! Mar!

Quem sentiu mar?

Não o mar azul
de caravelas ao largo
e marinheiros valentes

Não o mar de todos os ruídos
de ondas
que estalam na praia

Não o mar salgado
dos pássaros marinhos
de conchas
areias
e algas do mar

Mar!

Raiva-angústia
de revolta contida

Mar!

Siléncio-espuma
de lábios sangrados
e dentes partidos

Mar!
do não-repartido
e do sonho afrontado

Mar!

Quem sentiu mar?

                (1962)

SER TIGRE
 
O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.
 
Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.
 
Ele busca a fêmea
como quem procura comida.
 
Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.
 
Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.
 
Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.
 
Não soa,
porque não respira.
 
É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.
 
Não tem forma,
é quase nada, parece morto.
 
Porém existe,
por isso espera.
 
Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,
 
Ele será
quando for tempo disso.
 

 

CORSINO FORTES

 

DE BOCA A BARLAVENTO

                                I


Esta
     a minha mão de milho & marulho
Este
     o sól a gema E não
     o esboroar do osso na bigorna
                               E embora
O deserto abocanhe a minha carne de homem
E caranguejos devorem
             esta mão de semear
Há sempre
Pela artéria do meu sangue que g
                               o
                               t
                               e
                               j
                               a
                  De comarca em comarca
A árvore E o arbusto
Que arrastam
As vogais e os ditongos
            para dentro das violas


                                II


Poeta! todo o poema:
           geometria de sangue & fonema
Escuto Escuta

Um pilão fala
               árvores de fruto
                    ao meio do dia
E tambores
             erguem
                      na colina
             Um coração de terra batida
E lon longe
Do marulho á viola fria
             Reconheço o bemol
Da mão doméstica
                       Que solfeja

Mar & monção mar & matrimónio
Pão pedra palmo de terra
                     Pão & património


                      (Pão & fonema, 1974)
 


DE BOCA CONCENTRICA NA RODA DO SOL
 
 
Depois da hora zero
E da mensagem povo no tambor da ilha
Todas as coisas ficaram públicas na boca da república
As rochas gritaram árvores no peito das crianças
O sangue perto das raízes
E a seiva não longe do coração
 
E
 
Os homens que nasceram da estrela da manhã
Assim foram
        Árvore & Tambor pela alvorada
Plantar no lábio da tua porta
África
        mais uma espiga mais um livro mais uma roda
Que
Do coração da revolta
A Pátria que nasce
Toda a semente é fraternidade que sangra
 
                                        *
 
A espingarda que atinge o topo da colina
De cavilha & coronha
partida partidas
E dobra a espinha
como enxada entre duas ilhas
E fuma vigilante
o seu cachimbo de paz
Não é um mutilado de guerra
É raiz & esfera no seu tempo & modo
De pouca semente E muita luta.
 
  (in "Vozes poéticas da lusofonia", Sintra, 1999)
 
DANIEL FELIPE

Romance de Tomasinho-Cara-Feia

 

Farto de sol e de areia,

que é o mais que a terra dá,

Tomasinho-Cara-Feia

vai prà pesca da baleia.

Quem sabe se tornará?

 

Torne ou não torne, que tem?

Vai cumprir o seu destino.

Só nha Fortunata, a mãe,

que é velha e não tem ninguém,

chora pelo seu menino.

 

Torne ou não torne, que importa?

Vai ser igual ao avô.

Não volta a bater-me à porta;

deixou para sempre a horta,

que a longa seca matou.

 

Tomasinho-Cara-Feia,

(outro nome quem lho dá?)

farto de sol e de areia,

foi prà pesca da baleia.

 

- E nunca mais voltará.

 

 

Pátria lugar de exílio
(fragmento)

Neste ano de 1962
não como Hazim Hikmet no avião de pedra
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e no entanto prisioneiro
neste ano de 1962
exatamente
em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde

Neste ano de 1962
encostado a uma esquina da estação do Rossio
esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo
aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura

Aqui mesmo a mão sei quantos graus de latitude
e de enjôo crescente
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro de contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária de fábrica com três filhos famintos

Aqui mesmo envolto na placidez burguesa
higienicamente limpo e com os papéis em ordem
vestido de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto ao aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto
eu
neste ano de 1962
exatamente
não ontem mas precisamente às três horas da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria

 

GABRIEL MARIANO

 

CAMINHO LONGE

Caminho
caminho longe
ladeira de São Tomé
Não devia ter sangue
Não devia, mas tem.

Parados os olhos se esfumam
no fumo da chaminé.
Devia sorrir de outro modo
o Cristo que vai de pé.

E as bocas reservam fechadas
a dor para mais além
Antigas vozes pressagas
no mastro que vai e vem.

Caminho
caminho longe
ladeira de São Tomé
Devia ser de regresso
devia ser e não é.

(in "12 poemas de circunstância", 1965)
 

ÚNICA DÁDIVA

Os engajadores levaram
a nossa única dádiva
e já ninguém devolve
o que nos foi roubado.

                Longa è a ladeira que a fome alonga.

Enquanto eu vivo
as perguntas duram
E eu vivo da fome
interrogativamente.

                Longa è a ladeira que a fome alonga.

Como podem ladrões
rondar meus olhos
se amor só
meus olhos tem?

                Longa è a ladeira que a fome alonga
                terralonginquamente.


         (12 Poemas de Circunstância, Praia, Minerva, 1965)
                

LUÍS ROMANO

 

SÍMBOLO

O formato daquele berço foi um símbolo
O menino em miragens impossíveis
dormia sonhando com navios de papel
enquanto eu contemplava
a cismar,
o conjunto daquela harmonia
sumindo-se na linha do mar.

Navio-berço de menino crioulo
navio-guia que ficou sem ir
"navio idêntico ao navio da nossa derrota parada".


                            Clima, 1963

VIDA
  
A crioula que meus olhos beijaram a medo
prendeu-se na confusão de um porto francês
 
Ela sorria continuamente, erguendo no seu riso uma canção extraordinária.
 
Não foi um romance de amor
nem mesmo um pequeno segredo entre ambos.
 
Somente, quando Ela falava ao pé de mim, eu sentia:
um aprazível devaneio
pela maravilha escultural duma Mulher Perfeita.
 
Depois,
a Vida separando Nós-Dois
a confusão, os ruidos, os braços agitando-se
e o vapor levando para outros mares,
outros portos,
a graça, o mistério, o perfume e os cantares
da crioula que meus olhos beijaram a medo
no tombadilho daquele vapor francês.
 
  (Clima, 1963)

 

ONÉSIMO SILVEIRA

 

As Águas

 

A chuva regressou pela boca da noite

Da sua grande caminhada

Qual virgem prostituida

Lançou-se desesperada

Nos braços famintos

Das árvores ressequidas!

 

(Nos braços famintos das árvores

Que eram os braços famintos dos homens...)

 

Derramou-se sobre as chagas da terra

E pingou das frestas

Do chapéu roto dos desalmados casebres das ilhas

E escorreu do dorso descarnado dos montes!

 

Desceu pela noite a serenar

A louca, a vagabunda, a pérfida estrela do céu

Ate que ao olhar brando e calmo da manha

Num aceno farto de promessas

Ressurgiu a terra sarada

Ressumando a fartura e a vida!

 

Nos braços das árvores...

Nos braços dos homens...

 

(Hora grande, 1962)



QUADRO

Lá vem nho Cacai da ourela do mar
Acenando a sua desilusão
De todos os continentes!
Ele traz o peito afogado em maresias
E os olhos cansados da distancia das horas...

Lá vem nho Cacai
Com a boca amarga de sal
A boiar o seu corpo morto
Na calmaria da tarde!

Nho Cacai vem alimentar os seus filhos
Com histórias de sereias...
Com histórias das farturas das Ame'ricas...

Os seus filhos acreditam nas Américas
E sabem dormir com fome...

                     (Hora grande, 1962)

 

TEOBALDO VIRGÍNIO

 

ROTA LONGA

Irei na rota branca
da rosa de espuma
na hora madrugada
promissora da brisa.

Rota longa rota longa

Irei com a pétala ressequida
da tórrida paisagem
para além das distâncias secas.

Rota longa rota longa

Rota longa de espuma
vou irei espalhar minhas pétalas ressequidas
na hora madrugada
das correntes desatadas.

Rota longa rota longa

Vou irei sem detença
para além das distâncias secas
em busca do abraço ancorado
na outra margem da curva líquida.

Rota longa rota longa

Vou irei na hora alta desta vigília
e a manhã clara acontecerá.

Rota longa rota longa

Vou irei contra todas as cadeias protestantes do meu rumo
em cada protesto que embarco
na ondulação que se desatraca.

(in "Viagem para lá da fronteira", 1973, Lisboa,
Publicações da Casa de Cabo Verde)

 

TERÊNCIO ANAHORY

 

NHA CODÊ

Tiraram o lume dos teus olhos
e fizeram braseiro
para aquecer a noite fria;
noite de qualquer dia.
Roubaram o teu riso
e encheram de gargalhadas
de luz  e de música
as suas reuniões frustradas.
Da tua pele fizeram tambor
para nos ajuntar no terreiro!
Dondê nha Codê?
Não
não mataram o meu filho
que eu sei que o meu filho não morre.

                (Se choro
                são saudades de nha Codê...)
Nha Codê vive
na evocção de um mundo distante
no riso e no choro das ervas rasteiras
na solidão dos campos
nas pândegas de marinheiros
na vida que nasce e morre
em cada dia que passa!
... E em mim
        essa saudade de nha Codê!


                                        (in "Caminho longe", 1962)