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PEPETELA - A Geração da Utopia

A obra foi escrita em 4 partes, que se passam em períodos de dez anos.

Uma primeira parte em 1961 com o início da luta armada. Uma segunda parte em 1972, escrita na Frente Leste e sobre a guerrilha. O Polvo é a terceira parte, passa-se nos anos 80 e a última parte e passa-se nos anos 91-92, já depois dos acordos de Bicesse.

A Geração da utopia é um livro de desencanto. Voltamos a ter um livro de história na medida em que retrata épocas e que conta a História da geração que fez a luta de libertação pelo MPLA.

O primeiro capítulo é A Casa e segue o percurso dessa geração que veio para Lisboa estudar, que esteve na Casa dos Estudantes do Império, da casa partiram para a guerrilha e regressaram a Angola. O livro é a desconstrução desse mito da Utopia, quase de morte da esperança.

Nesta obra de Pepetela vemos abordado o problema da religião e o retorno à igreja de um povo que desespera, que desacredita. A religião como busca de força psicológica.

"È um livro para dizer que o processo não foi tão linear como algumas pessoas ainda querem fazer crer, os problemas já estavam no passado". - Pepetela.

 


 

A geração da Utopia.

Maria de Nazaré Ordonez de Souza Ablas*

* Doutoranda na Área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

– USP.

Autor de uma vasta obra, parte dela já conhecida pelo público leitor brasileiro (seus primeiros romances já foram publicados no Brasil), Pepetela lança agora seu segundo título pela Editora Nova Fronteira (o primeiro foi A Gloriosa Família, em 1999). Escrito em Berlim e editado em Portugal em 1992, A Geração da Utopia abrange trinta anos de história de um grupo de jovens angolanos, que se confunde com um período da própria história de Angola.

A ação dos protagonistas de A Geração da Utopia se desenvolve em quatro capítulos, iniciando-se por A Casa (1961)”, tendo seqüência em “A Chana (1972)”, “O Polvo (1982)”, finalizando com “O Templo (a partir de junho de 1991)”. Cada um deles se encerra com um epílogo.

A casa referida no título do primeiro capítulo, não é outra senão a Casa dos Estudantes do Império, pomposo nome do lugar em Lisboa, para onde convergiam os jovens africanos que, pela ausência de Universidades em seus países de origem – as colônias portuguesas na África – dirigiam-se para Lisboa, financiados (muitas vezes com maiores ou menores sacrifícios) pela família, Igreja ou alguma Instituição, a fim de cursarem uma Faculdade.

Ironicamente, o estado Salazarista subsidiava esse espaço, cuja cantina se tornou o ponto de encontro dos jovens estudantes africanos, sem inicialmente desconfiar que ali se gestava a queda dos últimos bastiões do Império português.

Na Casa reuniam-se angolanos, moçambicanos, caboverdianos, sãotomenses e guineenses, que enquanto expunham e debatiam suas produções intelectuais, aglutinavam-se também em torno de ideais libertários nacionalistas, de cunho socialista. Por lá passaram muitos jovens que, posteriormente, se consagraram por sua literatura – em prosa ou verso – de resistência, politicamente engajada,  inclusive o próprio Pepetela, que tinha ido para Lisboa a fim de estudar engenharia.

Ele, no entanto, por ter mais afinidade com a área de humanidades, acabou se matriculando no curso de história por ser, dentre os que existiam, o que mais se aproximava do que realmente desejava: Sociologia.

Quando chegou em Lisboa, em 1958, já tinha uma boa formação política e sua adesão à Casa dos Estudantes do Império foi apenas uma conseqüência desse fator.

Foi nesse espaço - mal visto pelas famílias da colônia e da metrópole – de efervescência cultural e política que se encontraram ou reencontraram os jovens estudantes, entre eles Costa Andrade, Ervedosa e Agostinho Neto. Assim, A Casa dos Estudantes do Império não foi só o espaço onde floresceram grandes intelectuais, mas o que também veio a fornecer os quadros das lideranças dos Partidos que propiciaram a libertação das Colônias.

Aliada à militância política desenvolveu-se uma fecunda criação literária. No caso específico de Pepetela a afirmação contrária talvez seja mais exata e por sua vivência nesse tempo e nesse espaço, pode-se inferir que esta obra tenha também forte cunho autobiográfico.

A Geração da Utopia aponta ainda para um fundo histórico, já observado em outras obras suas (Mayombe, Yaka, A gloriosa Família): através da ficção, está a proposta de contar alguns períodos da História, não como observador passivo, mas como alguém que não só a vivenciou , como ajudou a construí-la. Ele faz parte dessa geração que, ao tomar a História nas mãos, dela se fizeram sujeito e não mais objeto.

Sara, a estudante de medicina, branca (isso fazia diferença), filha de um comerciante rico; Malongo (namorado de Sara), jogador de futebol, farrista, mulherengo e politicamente “alienado”; Vítor, estudante de Veterinária, companheiro de quarto de Malongo, de quem seguia as pegadas, mas que gozava da confiança do grupo; Aníbal, formado em Histórico-Filosóficas, líder, reconhecido em todos os tempos e espaços como “O Sábio”; Elias, protestante, sério, radical, partidário da violência; o “miúdo” Laurindo; o literato impertinente Horácio, são algumas

das personagens que circulam pela Casa e com cuja trajetória o autor vai se preocupar.

São fictícias, mas que a exemplo de outras referidas em várias obras de Pepetela, refletem ou aglutinam características de outras, reais, (inclusive do próprio autor) que conviveram no mesmo ambiente, no mesmo período.

Se uns estudavam, outros nem tanto. O futebol, a música, a farra, a política, absorviam grande parte do tempo dos estudantes e, ao apontar para esse lado mais humano das personagens, retira-as do campo idealizado, revelando as metamorfoses e contradições presentes em qualquer jovem que viveu naquela época, em situações similares.

Entretanto, fora desse circuito, estava-se formando o MPLA, cujo programa surgia como uma opção para substituir a UPA e a adesão das lideranças foi decisiva para o quadro que se delineou a seguir.

A Casa dos estudantes, vista pela comunidade como um antro de comunistas, passou a se alvo atento da PIDE. Enfim, já não havia segurança em Lisboa para os nacionalistas. No país mais próximo, a Espanha, tampouco, com a ditadura de Franco. No entanto, a França acenava como a grande e mais próxima visão de liberdade.

Aníbal, que apesar de sua militância política, prestava serviço militar obrigatório no exército português, foi o primeiro a partir. Sua recusa em participar da guerra colonial, não lhe deixou outra opção que não a de desertar, mantendo a coerência entre seu discurso e a prática. O grupo seguiu depois. Sara, já formada, esperando um filho de Malongo.

Os homens se engajaram na guerrilha e se ela, em tese, poderia uni-los servindo de eixo para um ideal comum, na prática contribuiu para distanciá-los. As privações e os perigos por que passaram, revelaram a verdadeira face de cada um.

E a visão nem sempre foi boa. É o que se nos depara em A Chana, um dos palcos da luta armada na Frente Leste. Cenário pouco adequado para tal atividade, “apenas um terreno sem árvores que é preciso atravessar para chegar à floresta ansiada?” Não seria ela própria a metáfora do lugar onde todos podem ver e ser vistos, em oposição à floresta, mais propícia à camuflagem? A Chana foi o espaço da metamorfose de Vítor.

Ele, que na guerrilha adotou o codinome Mundial, traiu seu próprio nome de guerra. Se “mundiais” podiam ser os valores consagrados pelo grupo, no entanto, a inversão de valores é já apontada na década seguinte a sua saída de Lisboa, quando reaparece na guerrilha, na Frente Leste, individualista e egocêntrico, características

que o acompanharão, assim como o seu nome de guerra, até o fim da narrativa, estando ele no posto de presidente da república angolana.

O Polvo, ao contrário dos outros capítulos, situa-se em um tempo breve, introspectivo, reflexivo e datado: abril de 1982. Pressentido por Vítor, como morto, no epílogo de A Chana, Aníbal reaparece numa praia nos confins de Angola.

Sobrevive graças a uma escassa pensão do exército (sua única concessão) e da caça marítima, que faz questão de diferenciar da pesca: esta é uma atitude passiva, enquanto aquela envolve “um corpo a corpo, usa uma arma contra um adversário que vê e respeita”. Muito típico do Sábio, embora o resultado final de ambas seja o mesmo – o peixe na panela.

Este é um capítulo de reencontros: o do homem consigo mesmo, o do homem com um pesadelo do passado – emblematizado na figura do polvo – quando faz um mergulho literal para matá-lo e o do homem com a mulher. O reencontro com Sara marca a consumação de um amor platônico, sublimado anteriormente em função de outro, se não maior, mais urgente: aquele que, exercitado na guerrilha, traduzia o amor pelo seu país.

As personagens, seguidas em percursos quase isolados, cruzam-se novamente no último capítulo: O Templo. O título é uma alusão à Igreja da Esperança e Alegria do Dominus, liderada por Elias. A tônica desta última parte do romance é o desencanto

Embora as contradições do regime já estivessem apontadas, metaforicamente, desde o início, através da relação entre a militante Sara com o apolítico Malongo, Vítor (principalmente), Malongo e Elias apresentam-se como a síntese de todas elas, principalmente no que concerne à corrupção que assolou Angola após sua independência.

Dos antigos sonhos pouco restou. Alguns morreram por ele. Os que escaparam, viram-no morrer. Sara, apesar de tudo, continua militando. Aníbal é o único que ainda acredita. Não no sistema, mas no ser humano que pode modificá-lo.

Se a utopia, como topônimo, é o lugar da felicidade ou que não existe, para esta geração ele existiu e teve um endereço: A Casa dos Estudantes do Império. E se ela cumpriu sua trajetória e nada mais tem a dizer, não significa, entretanto, que o sonho tenha acabado. Outras poderão vir e retomá-lo, basta que um comece.

Isso é vislumbrado em Judite, a filha de Marta, e em seu namorado, Orlando. “Portanto, só os ciclos eram eternos”.

O lapso de tempo ocorrido entre a elaboração desta obra e o seu lançamento aqui no Brasil atestam que ela continua atual em todos os lugares em que alguém sonhe e acredite que através dele, possa mudar o mundo para melhor.

“Mais desejo que espero”.

(Fonte: http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via04/via04_22.pdf)


Um breve olhar sobre a representação da mulher em A geração da utopia, de Pepetela
 

Profa. Dra. Shirley de Souza Gomes Carreira
Professora de Literatura Comparada da UNIGRANRIO
http://www.shirleycarreira.homestead.com/index.html
mitchell@centroin.com.br
 

Texto apresentado no Congresso Internacional de Literaturas Africanas, em outubro de 2003 na Universidade de Coimbra

O romance A geração da utopia [i], de Pepetela, tem sido amplamente analisado sob o ponto de vista da sua representatividade em relação à literatura que surge do entrelaçamento da história oficial e da ficção.
Ao reconstruir no universo ficcional a gênese do movimento de libertação e o desenrolar da Guerra Colonial em Angola, Pepetela concede-nos o olhar da testemunha e, ao mesmo tempo, insere o seu romance em uma fase da literatura angolana que tem sido denominada “de resistência”, enfatizando uma temática de guerrilha.
A geração da utopia registra a participação feminina no movimento de luta pela independência de Angola. Ao fazê-lo, traça perfis distintos de mulher, que operam no universo ficcional de modo a concretizar simbolicamente, em seu relacionamento com as personagens masculinas, o ideal revolucionário, a África mítica, a adoção da ótica do dominador e a falência da utopia.
Esta comunicação propõe uma breve análise desses perfis femininos e o modo pelo qual concorrem para instaurar o discurso de perplexidade e desencanto que caracteriza o romance.
Mas quem são essas mulheres?
Sara nos é apresentada no primeiro capítulo como uma Angolana branca, “e portanto considerada à partida uma boa portuguesa”. No entanto, fica claro, desde o princípio, que, apesar de ser filha de comerciante rico e receber uma mesada abastada, Sara interpreta a sua estada em Lisboa como um exílio, o que torna inevitável a percepção da sua diferença cultural em relação aos portugueses.
Ao vir para Portugal, a fim de estudar medicina, padeceu da nostalgia típica dos exilados, sofrendo com a distância, que, em suas próprias palavras, “emprestava às coisas o tom patinado da perfeição” (AGU, 11). É sobre esse tom que se constrói a utopia, apoiada no mito do eterno retorno.
Sara e seus compatriotas têm uma relação mítica com a terra longínqua, como se ela fosse um paraíso a ser recuperado, como se fosse o ventre materno, ao qual gostariam de recolher-se novamente.
Ao envolver-se com os estudantes da Casa dos Estudantes do Império, berço dos movimentos revolucionários que visavam à libertação das colônias portuguesas, Sara emblematiza o ideal de liberdade que o romance enuncia, ao descrevê-la de braços abertos, em ânsia de voar:
Era um dia particularmente luminoso e quente para um abril lisboeta. Na véspera tinha chovido toda a noite, o que era próprio da estação, mas hoje o Sol nascera num céu tão azul que até dois não poder voar. Sara abriu os braços descobertos. Inútil, não nascera pássaro. (AGU, 9 )
O narrador se serve do olhar de Sara para trazer à baila as divisões existentes entre os estudantes oriundos das colônias; a tendência de brancos agruparem-se com brancos, tornando evidente que a questão racial se sobrepunha à origem geográfica, e que, mesmo entre os colonizados, havia uma forte tendência à segregação:
As mesas estavam todas ocupadas, aos grupos de quatro. A maioria era de angolanos, todos misturados, brancos, negros e mulatos, estes bem mais numerosos. Os caboverdianos, que se misturavam facilmente com os angolanos, eram quase exclusivamente mulatos. Os guineenses e são-tomenses, mais raros, eram negros. Os moçambicanos eram na quase exclusividade brancos. E tinham tendência de se juntar aos grupos. Mesa unicamente ocupada por brancos, já se sabia, era de moçambicanos. A british colony, como diziam ironicamente os angolanos. Claro que havia excepções, como aquela mesa em que Belmiro chegou atrasado e o único lugar vago era naquela mesa. Se pudesse escolher, ia para outra, até porque a conversa certamente estava mais emperrada que normalmente. Os angolanos tinham menos desses problemas, apesar dos últimos acontecimentos. No entanto, ela sentia, havia muito subtilmente uma barreira que começava a desenhar-se, algo ainda indefinido afastando as pessoas, tendendo a empurrar alguns brancos angolanos para os grupos moçambicanos. A raça iria contar mais que a origem geográfica? (AGU, 18)
O romance aborda pela ótica feminina uma questão que faz parte da história dos povos ex-colonizados: o risco de um nacionalismo exacerbado, que provoca uma espécie de cegueira social e que fatalmente leva não só a exclusões injustas, bem como a uma espécie de auto-exílio, que impede que se aprenda algo com o progresso de outros povos e culturas.
Divididos entre uma postura antiimperialista e uma possível evolução decorrente do hibridismo cultural, o colonizado tende muitas vezes a uma posição radical, que dá início a um processo discriminatório quase tão intenso quanto aquele do qual tem sido vítima.
Essa postura, que, segundo Fanon[ii], é a violência dos oprimidos decorrente dos traumas causados pela violência dos opressores, foi, em parte, responsável pela postura adotada pelo MPLA, o partido vencedor, no sentido de privilegiar a noção de “angolanidade”, ainda que para isso tivesse de ignorar discordâncias que estão internalizadas na memória coletiva dos diversos grupos étnicos e culturais de Angola.
Sara assume sua posição pró-independência, embora sinta que é vista com desconfiança pelos próprios compatriotas pelo fato de ser branca.
Ainda no primeiro capítulo, é visível a incompatibilidade entre Sara e Malongo, na mesma proporção em que se torna evidente a afinidade com Aníbal.
Ao acolher Aníbal, quando este deserta, Sara compartilha o seu idealismo e pensa, inclusive, que se viesse a fazer amor com ele seria por motivo diferente daquele que a fazia entregar-se a Malongo. Com Aníbal, seria fundir-se em uma comunhão simbólica, que vinha do misticismo das origens. Sara e Aníbal compartilham alguns traços de personalidade, além do sonho comum de liberdade: ambos são reconhecidamente inteligentes, capazes e conscientes de seu papel na formação da nação angolana.
É Sara que, em uma conversa com Laurindo, enuncia o conceito de utopia que remete ao título do romance: um casamento harmonioso entre o nacionalismo e o internacionalismo. Cabe também a ela questionar se essa utopia é realizável:
– Um casamento entre nacionalismo e internacionalismo, é isso?
– Definiste muito bem. Um casamento harmonioso entre dois contrários antagônicos.
– Mas isso é linguagem marxista.
– Pois é. Resta a saber se essa utopia se pode realizar. Alguns dizem que já a realizaram, com o comunismo.
( AGU, 92)
A exclusão que sofre, ao passar anos em Paris à espera de uma convocação para engajar-se na luta, anuncia a falência da utopia. Não há espaço para ela nessa guerra, porque os que a vivem, como Aníbal, percebem a sua deterioração e, conseqüentemente, a inutilidade de convocar uma mulher, que além de tudo tem uma filha, para uma luta cujos ideais já se corromperam.
A utopia girava em torno de uma “comunidade imaginada”, um discurso possível, segundo a definição que Benedict Anderson[iii] atribui à construção da identidade nacional. Nessa comunidade, estariam contidos os traços que constroem a identidade: a memória, os mitos, o desejo de união, o idioma, a etnia. A identidade nacional seria, portanto, definida pelo estranhamento em relação a outras comunidades, pela diferença.
A tão sonhada independência não foi capaz de tornar real o ideal dos revolucionários. À excitação inicial seguiram-se os partidarismos e as divisões e a decepção de Aníbal ao final do romance, o seu auto-exílio, não significa o repúdio ao nacionalismo, mas à constatação do fracasso dos novos governantes e dos modelos de Estado-Nação que foram construídos.
Assim como Sara encarna o ideal revolucionário, Fernanda antecipa simbolicamente a sujeição de Vítor aos apelos do capitalismo e do poder. A bela mulata pela qual ele se apaixona é o emblema da adoção da ótica do dominador. Em meio à conversa que tem com Vítor em seu primeiro encontro, Fernanda deixa bem claro que viera a Lisboa por conta dos estudos e que não tem o menor interesse em política, demonstrando de imediato que já fora devidamente catequizada pela família a fim de precaver-se contra a influência dos revolucionários.
É a curiosidade que a leva à Casa dos Estudantes do Império e ao namoro com Vítor. Quando este a convida a partir com ele, ela recusa, optando pela segurança do sistema estabelecido.
A fragilidade e a insegurança de Vítor é introduzida simbolicamente no romance por meio de sua falta de sorte com as mulheres. Anos mais tarde, ele é acusado por Aníbal pelo seu oportunismo e por enviar um camarada para uma missão fatal a fim de ficar com sua mulher. O Sábio já havia pressentido nele os sinais da mudança.
A sua rápida ascensão política é fruto do engodo, da corrupção e de negócios fraudulentos. Ao fim do romance, Vítor está completamente seduzido pelo poder e pela ambição, tendo se distanciado por completo das convicções políticas da juventude. Tal mudança é expressa também por meio da mulher com a qual decide se casar, após abandonar esposa e filhos. Luzia idolatra o padrão de vida e comportamento europeu e essa idolatria se revela na sua tentativa de imitar o sotaque lisboeta e no seu exagero ao vestir-se.
Marta, a amiga de Sara, que ajuda a esconder Aníbal até a sua fuga para Paris, tem uma breve, mas significante, participação no romance, pois preconiza a falência da utopia, quando diz a Sara que se Aníbal não morrer, com certeza há de desiludir-se. Anos mais tarde, é o próprio Aníbal que confessa: “Eu morri e desencantei-me” (AGU, 240). A morte simbólica do herói recupera os mitos de morte e ressurreição. Clyde Ford[iv] afirma que “a sabedoria mítica africana sustenta que a vida humana corresponde a um ciclo infindável da natureza”.
Em A geração da utopia, Pepetela caracteriza as diversas posturas de seus compatriotas quanto ao ideal nacionalista, sem, no entanto, deixar de urdir uma tessitura do discurso histórico com o discurso mítico.
Mussole é a personagem feminina que representa a África mítica. Segundo as palavras do narrador, ela é “o tumulto profundo que se deixa adivinhar nas águas paradas, é a vida borbulhante na chana” (AGU, 115).
O primeiro contato entre Aníbal e Mussole ocorre durante a xinjanguila, uma dança típica, que, por sua vez tem uma conotação importante no desenvolvimento do romance. Aníbal usa os passos da dança para explicar simbolicamente a Mundial a necessidade de união e justaposição de forças coletivas como elemento imprescindível ao sucesso do combate e da reorganização político-social pós-conflito.
Durante a dança, Aníbal percebe em Mussole uma força interior, selvagem, que parece interagir com a natureza. Essa percepção se concretiza no ato sexual, na descrição do seu orgasmo múltiplo, profundo, telúrico.
A violação, a morte e o esquartejamento de Mussole são, por sua vez, metáforas da corrupção do idealismo revolucionário, que visava à construção de uma unidade nacional, bem como simbolizam os partidarismos que deram origem à guerra civil.
Quando Aníbal opta pelo auto-exílio na Caotinha, planta e rega uma mangueira na qual acredita que o espírito de Mussole habita. Inconscientemente, planta e rega o que resta da sua crença, dos seus ideais:
– Alguma morte tem sentido, Mussole? E estás mesmo a ouvir-me? Senti no dia que te dei nome e te plantei, as tuas folhas começaram a agitar-se em música. O espírito longínquo da falecida no Leste encontrou o caminho para aqui. Longa distância, mesmo para um espírito. Tão cansado ficou que nem fala, nem se manifesta. Creces, creces, com o espírito em cima. Frutos não dás, bem sei que ainda não chegou o tempo. Mas podias de vez em quando xuaxualhar as folhas, quando não há vento, para me indicar que estás aí e não dormes.
( AGU, 235)
O romance associa a questão da utopia a uma dimensão subjetiva da terra, onde estão entrelaçadas as vivências e as experiências humanas com o espaço. O processo de construção imagética de uma sociedade tem suas raízes nos símbolos evocados, que se encontram fixados no inconsciente coletivo.
Para Jung [v] “o símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária embora possua conotações especiais além do seu significado evidente e condicional”.
A conexão simbólica da mulher com a terra é uma constante na ficção e na poesia africanas. Clyde Ford [vi], em O herói com rosto africano, afirma que a Deusa mítica na África, a Grande Mãe da Criação, revela-se em três símbolos amplos de sua procedência e poder: a árvore, a terra e a pedra.
Quando o indivíduo passa para a terra de Kalunga, a terra dos mortos, a sua kilembe, a Árvore da Vida, o representa no mundo iluminado da face da terra. A árvore é, portanto, uma representação do centro psicológico dos seres: as raízes coincidem com as profundezas do inconsciente humano, o tronco representa o reino intermediário da terra, o campo da consciência desperta, e as folhas são o domínio enaltecido do espírito humano.
Essas imagens são associadas à figura do herói na mitologia africana e Pepetela as recupera e reelabora simbolicamente ao contar a saga de Aníbal, do seu ideal revolucionário, conferindo a Mussole o elo com a terra, com o princípio feminino que permeia a sociedade e a natureza na África.
Ao reencontrar-se com Sara ao final do romance, dando vazão ao desejo por tantos anos acalentado, Aníbal observa que a mangueira se agita, em sinal de aprovação, como se fosse a bênção da Mãe Terra.
Ao interpelar a história por meio da ficção, Pepetela desvela o lugar do imaginário, na confluência entre o sonho e a realidade, entre o visível e o invisível, entre o idealismo e a concretização.
Mussole é objetivamente associada à chana no que ela tem de mais recôndito, na sua essência. Após a morte da personagem, esse simbolismo é transferido para a árvore, onde Aníbal crê que seu espírito habita.
A terra, em essência, representa mais que um espaço de morada; é, na verdade, um registro simbólico. Como base para as representações imagéticas, a terra se constitui também em um componente do imaginário social, pois, embora fruto de atributos humanos, a capacidade imaginativa se alimenta também de atributos espaciais, estando ambos, portanto, indissociáveis.
Com essas relações simbólicas, o autor parece querer lembrar ao leitor que o espírito de unidade, que um dia foi a força motriz da luta pela independência, continua a pairar, invisível, como o espírito de Mussole, sobre a terra angolana, à espera de que o ciclo vital da natureza, das mutações constantes, se cumpra e o traga de volta à vida. Esse simbolismo parece encontrar eco nas últimas palavras do romance, quando o narrador afirma que não pode haver ponto final numa história que começa por “portanto”. Essa afirmação contém a esperança discursiva de que o desencantamento possa vir a ser superado, porque conforme o que se lê na primeira linha do romance, só os ciclos são eternos.
(Fonte:http://www.unigranrio.br/unidades_acad/ihm/graduacao/letras/revista/numero10/textoshirley8.html)
Referência Bilbiográfica

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[i] PEPETELA. A geração da utopia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. Doravante, usaremos a abreviatura AGU ao nos referirmos ao romance.
[ii] FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.
[iii] ANDERSON, Benedict. Nação e consciência Nacional. São Paulo; Ed. Ática, 1989.
[iv] FORD, Clyde W.O herói com rosto africano. Mitos da África. Trad. Carlos Mendes Rosa. São Paulo: Summus, 1999, p. 71.
[v] JUNG, Carl G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964, p.20.
[vi] FORD, Op. Cit. p.181.