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JOSÉ LUANDINO VIEIRA - NÓS, OS DO MAKULUSU

(texto adaptado de estudo de Rita Chaves)

 

        Escrito em 1967, quando o autor estava preso no Campo do Tarrafal, Nós, os do Makulusu apresenta o quadro da guerra colonial, cujo deflagrar se anunciava em A Vida Verdadeira de Domingos Xavier. Ao deixar de ser subterrânea, a luta se expõe a céu aberto as contradições que povoam o espaço social e o mundo interior de cada ser, ali condenado a viver um tempo doloroso. Mergulhado num cenário em que as tensões são avivadas pelos passos mais cotidianos, o sujeito se faz interrogação, interroga aos outros e interroga a si, procurando respostas onde só as indagações encontram razão de ser. Atravessando todo o romance, a atmosfera não se fechará até o fim; significativamente, a narrativa conclui com um ponto de interrogação. O discurso do narrador se encerra, e o eco de suas palavras - ou só dúvidas? - permanecerá na mente do leitor.

            Consolidando o movimento de apropriação pela via literária, a cidade de Luanda, já apaixonadamente saudada nas estória de Luanda, é novamente eleita e se faz lugar central por onde circulam as personagens desse escritor que já a incorporara ao próprio nome. Ali, as marcas da vida moderna estão mais presentes e agudizam as contradições da sociedade fraturada. A pluralidade manifesta na coexistência de línguas, tradições e códigos culturais variados transformam a cidade numa metáfora viva do país. Desse universo fragmentado, em que fermenta a idéia de uma nova nação e pulsa o sonho de uma sociedade mais igualitária, precisa se apropriar a voz do narrador ansioso por narrar suas luzes e sombras. Apossar-se da cidade é, portanto, caminhar na direção do país, fazendo do exercício literário um ato de conhecimento da realidade plasmada pelos índices da saturação. A luta armada, já afirmamos, dilui a possibilidade de qualquer solução conciliatória e acentua a necessidade de se definirem posições e papéis.

(...)

            Representativo de um tempo desnudado, o romance inicia-se com um tiro. Ao atingir Maninho, “aquele a quem se estendiam os tapetes da vida”, a bala penetra a narrativa para expressar a decomposição de um universo condenado:

 

“Simples, simples como assim um tiro; era alferes, levou um balázio, andava na guerra e deitou a vida no chão, o sangue bebeu.”

 

            A morte da personagem, o “capitão-mor do riso”, define para sempre o destino dos quatros moços que da camaradagem da infância guardavam lembranças e sinais de uma harmonia proibida pelo presente. Apartados pela decisão de trilhar caminhos, mais que diferentes, antagônicos, os quatro cavaleiros de Makulusu perdem a possibilidade de recuperar valores identificados com um passado mais doce e para sempre perdido. As diferenças observadas mas relevadas na infância, já não podem ser equacionadas e crescem na antinomia dos projetos.

            A narrativa traz predominantemente a voz do Mais-Velho, irmão do Maninho, alferes morto. O grupo se completava com Paizinho, meio-irmão dos dois - filho do pai Paulo com a negra lavadeira que servira ao colono antes da chegada da família a Angola - e com Kibiaka, morador do Bairro Operário, também companheiro das aventuras infantis pelos capinzais do Makulusu e arredores. Nascidos na metrópole, filhos de colonos, os dois primeiros são brancos, Paizinho é mulato e Kibiaka é negro. As diferenças raciais, motivados das ofensas nas brigas da infância, serão minimizadas pelas diferenças ideológicas que conduzem as escolhas feitas por cada um. No exército colonial português se inscreve o Maninho; para a guerrilha nas matas se dirige Kibiaka; Paizinho escolhe a resistência clandestina pelos bairros luandenses; e Mais-Velho, imerso em contradições, não consegue ir além do trabalho intelectual em favor da terra que adota como sua.

            O romance é, assim, a expressão de sua consciência, dividida entre dois mundos em franca colisão, dilacerada pela dor e pelas dúvidas que emergem enquanto percorre as ruas de Luanda para assistir ao funeral do irmão morto. Enquanto caminha, seu olhar seleciona objetos e sensações a serem transformados em palavras, ao fim e ao cabo, insuficientes para exprimir a verdade do instante.

            Da Cidade Baixa, perto do mar, parte então a personagem narradora e em seu itinerário, irá da Sé até o cemitério do Alto das Cruzes no Miramar (parte alta da cidade), passando pelas ruas do Makulusu, espaço feito magia pela força das evocações. Nessa trajetória, o fio da ficção vai recolhendo dados da realidade material, através dos quais acordam-se sentidos que conduzem a outras leituras do mundo. Diante do olhar perplexo do filho de colono que aprendeu a amar a nova terra, as coisas se desorganizam e reorganizam, propondo verdades múltiplas em sua capacidade de reordenar contradições. Nesse movimento está a raiz de dois fenômenos aparentemente antitéticos: de um lado a marcante ligação com o real, alimentada pelas referências à amargura de um presente dilacerado pela noção da morte; de outro a necessidade de reviver sensações como resgate do mundo fantasioso configurado nas areias do Makulusu da infância. A dor cruel gerada pela dor do irmão companheiro de outras lutas faz imperiosa a saudade do tempo em que o perigo maior se representava pelos maquixes e quinzares habitando as cavernas das brincadeiras infantis.

            Entre o agora vivido e o miticamente recordado ergue-se a matéria com que Luandino arma o seu texto. Organizados segundo os filtros da memória - por onde passeiam lembranças, os sonhos, as expectativas, os amores, as angústias e os mistérios de cada vida -, esse inventário de coisas e sensações vai compor a imagem de um mundo pulverizado. As noções do passado, presente e futuro se misturam, e até mesmo a ilusão de linearidade é abandonada porque se revela incompatível com a consciência aguda de uma realidade estilhaçada.

  

(texto adaptado de CHAVES, Rita. A Formação do Romance Angolano. Coleção Via Atlântica, n.° 1, 1999 - páginas 172-175)