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José Luandino Vieira. Cidadão angolano pela sua participação no movimento de libertação nacional e contribuição no nascimento da República Popular de Angola. Infância, juventude e estudos primários e secundários em Luanda. Diversas profissões. Preso pela PIDE em 1959 (Processo dos 50). De novo preso (1961) e condenado a 14 anos de prisão e medidas de segurança. Transferido, em 1964, para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde passou 8 anos, foi libertado em 1972, em regime de residência vigiada em Lisboa. Iniciou então a publicação da sua obra, na grande maioria escrita nas diversas prisões pode onde passou. Membro fundador da União dos Escritores Angolanos, exerceu a função de secretário-geral desde a sua fundação — 10-12-1975 — e em vários mandatos até 1992.

 

Lingua portuguesa e identidade nacional em José Luandino Vieira

É através da literatura oral africana que tradicionalmente ocorria a transmissão de conhecimentos de uma geração a outra. Por muito tempo, essa forma de expressão africana foi considerada de menor valor, mas aos poucos foi obtido o reconhecimento em veículos culturais de maior expressão. Os poetas com origem na literatura oral tinham como preocupação central a situação de opressão do povo sob os colonizadores, e o papel da mulher na sociedade em transformação. Em Angola, antes da independência, nas décadas de 1950 e 1960, a procura da identidade nacional foi realizada por meio da poesia, instrumento para a busca da autenticidade emocional vinculada à luta nacionalista. Temas da poesia nessa época eram a evocação da infância, das memórias ancestrais, o sentimento de desenraizamento, a valorização da solidariedade. Nessa época surgiram poetas da importância de Agostinho Neto, que após a independência (11 de novembro de 1975) viria a ser presidente do país. Outros poetas de destaque nesse período e durante a luta de independência foram Viriato da Cruz e António Jacinto .

Uma contradição inerente às literaturas africanas contemporâneas é a manutenção das línguas coloniais, ao mesmo tempo em que se busca a autenticidade africana e a construção da identidade nacional em cada país, cujos limites geográficos, determinados pelos colonizadores, muitas vezes não seguiam as divisões de grupos culturais e étnicos do continente, e muitas vezes dividiam um grupo original em dois países, ou então, agrupavam num único país nações tradicionalmente rivais.

Escritores de expressão internacional, como o nigeriano Chinua Achebe, admitem que a língua dos colonizadores acabou por se tornar a língua nacional, uma vez que os africanos das novas gerações já nasceram no interior dessas línguas (na Nigéria, trata-se do inglês). No caso de Angola, a língua oficial é o português, mas não podemos nos esquecer de que Angola abriga cerca de onze grupos lingüísticos principais, que podem ser subdivididos em diversos dialetos (cerca de noventa). As línguas principais, faladas por cerca de 70% dos africanos de Angola, são: o umbundu, falado pelo grupo Ovimbundu (parte central do país); o kikongo, falado pelos Bakongo, ao norte, e o chokwe-Lunda e o kioko-Lunda, ambos ao nordeste. Há ainda o kimbundu, falado pelos Mbundos, Mbakas, Ndongos, e Mbondos, grupos aparentados, que ocupam o litoral, de Luanda e arredores até o rio Cuanza. (Hamilton, ..., 154).

Dada essa variedade lingüística original, o português, imposto pelos colonizadores, acabou por se tornar uma espécie de língua franca, que facilitava a comunicação entre os diversos grupos. Em contato com as línguas nativas, o português também sofreu modificações, dando origem a falares crioulos, conhecidos como pequeno português, ou popularmente, como pretoguês.

José Luandino Vieira - escritor que se tornou conhecido com a revista Cultura, de 1957, e que participou com sua literatura da luta pela independência e também como membro do MPLA, tendo ficado preso de 1961 a 1972 por atividades anticolonialistas - em seu livro de contos de 1964, Luuanda, escrito na prisão, retrata o bilingüismo da capital Luanda, onde o português, língua oficial, convive com o kimbundu, a língua do dia a dia. Em contos e novelas, Luandino Vieira retrata contradições sociolingüísticas, expressas em conflitos de gerações, etnias, e ideologias.

O livro Luuanda recebeu o prêmio literário angolano Mota Veiga, em 1964, e o Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, de 1965. Por ser Luandino Vieira prisioneiro político em Angola, as autoridades de Lisboa tentaram retirar o prêmio, lançando suspeitas sobre a excelência literária do livro, e talvez assustados com as palavras e frases em kimbundu, inseridas nas estórias. Além disso, em 1972, uma edição de Luuanda pelas editora edições 70, teve apreensão decretada em Portugal pelo governo de Marcelo Caetano. Em recurso jurídico, a editora solicitou a avaliação literária de eminentes críticos e estudiosos de literatura africana, no que foi atendida por Jorge de Sena, escritor, crítico e professor livre-docente em literatura portuguesa no Brasil e na Universidade da Califórnia, e Ferreira de Castro, intelectual português. Tratava-se de apontar que as qualidades literárias da obra superavam em muito qualquer leitura política sectária, e esses dois críticos foram os únicos a ter coragem de manifestar sua solidariedade, naquele tempo de opressão também em Portugal.

A identidade nacional nos contos de Luuanda

A obra literária de José Luandino Vieira - especialmente contos nos quais o espaço literário está centrado nos musseques, bairros pobres e, portanto, vítimas da discriminação e opressão econômica - contribuiu para a integração cultural e lingüística de Angola. Seus contos têm por função ajudar a reconstruir a cultura de um povo que, por muito tempo, foi desenraizada e fragmentada.

José Luandino, embora de origem portuguesa, soube introduzir em seus textos a língua falada dos musseques e o kimbundu, apresentando-os não de forma exótica, mas integrada ao contexto maior da estória.

Os textos são literariamente muito bem elaborados, e contam com um motivo figurador central. No conto "O Ladrão e o Papagaio", esse motivo central é o "cajueiro". Ao redor da imagem da árvore - símbolo universal de unidade, regeneração, auto-realização e crescimento orgânico, íntegro - desenvolve-se a ação discursiva no conto. Não se trata de qualquer árvore, mas uma árvore de importância nacional, o cajueiro, símbolo da MPLA (Movimento pela Libertação de Angola), que indica a resistência, ainda que no meio da destruição.

Esse ideal de resistência está bem explicitado no seguinte trecho do conto: "Fiquem malucos, chamem o trator, ou arranjem as catana, cortem, serrem, partam, tirem todos os filhos grossos do tronco-pai e depois saiam embora, satisfeitos: pau de cajus acabou, descobriram o princípio dele. Mas chove a chuva, vem o calor, e um dia de manhã, quando vocês passam no caminho do cajueiro, uns verdes pequenos e envergonhados estão a espreitar em todos os lados, em cima do bocado grosso, do tronco-pai". (Luuanda, 1982: 53).

Ao discorrer sobre o fio da vida, o personagem Xico Futa completa o seu ensinamento: " (...) não adianta ficar vaidosos com a mania que partiram o fio da vida, descobriram o princípio do cajueiro ...". E mais adiante conclui: "... o fio da vida não foi partido".

Podemos perceber no texto também a preocupação do autor quanto aos verdadeiros sentimentos de apego aos costumes e à tradição, quando se recomenda que se deve começar pelas coisas da terra, "costuma se começar, para ser mais fácil, na raiz dos paus, na raiz das coisas, na raiz dos casos, das conversas" (Luuanda, p. 54).

Segundo alguns intérpretes, dessa forma Luandino Vieira sugere como princípio para a construção da identidade nacional, a formação da personalidade na vivência familiar e no grupo étnico, bem como pela educação.

Já no conto "Estória da Galinha e do Ovo", a trama se desenvolve em torno da disputa por um ovo, que simboliza a identidade do grupo (os habitantes pobres de um musseque). Dois modos de existência do grupo são possíveis, o conflito interno, ou a união para se defender da opressão econômica, racial ou policial.

No início dessa estória, duas vizinhas - mulheres negras e pobres do musseque - disputam pela propriedade de um ovo. Nga Zefa tem uma criação de galinhas, mas uma das galinhas insiste em ir ciscar no quintal de Nga Bina, que tem o marido preso, está grávida e não tem criação de galinhas. Nga Bina dá milho à galinha de Nga Zefa, até que a galinha põe um ovo no seu quintal. As vizinhas brigam, uma reivindicando o direito à propriedade da galinha e do ovo, a outra, reivindicando o direito ao ovo já que a galinha comeu do seu milho. Outras mulheres vizinhas aparecem para escutar e opinar, com a mediação da mais velha do grupo, a Vavó Bebeca. Diz Nga Bina:

" Sukuama ! O que é eu preciso dizer mais, vavó? Toda a gente já ouviu mesmo a verdade. Galinha é de Zefa, não lhe quero. Mas então a galinha dela vem no meu quintal, come meu milho, debica minhas mandioqueiras, dorme na minha sombra, depois põe o ovo aí e o ovo é dela? Sukuá ! O ovo foi o meu milho que lhe fez, pópilas !"

Faz-se uma roda de vizinhas - mulheres negras - para arbitrar o caso, e são chamados vários passantes para dar sua opinião. Os passantes - um aspirante a seminarista, representando o poder clerical; um ex-notário e beberrão, simbolizando a burocracia e os maridos que não ajudam as mulheres; um homem branco; um proprietário que aluga as habitações para os pobres, simbolizando a exploração econômica - todos procuram tirar proveito da desunião do grupo, tentando obter a propriedade do ovo para si. Finalmente, aparece a instância de opressão maior na forma de uma polícia que discrimina os negros pobres do musseque. O sargento da tropa diz que não são permitidas reuniões, e tenta se apropriar, não do ovo, mas da galinha.

A chegada da polícia representa uma ameaça mais concreta vinda de fora, e devemos entender essa opressão no contexto dos problemas políticos de Angola da época em que o conto se desenrola, antes da independência. Os demais representantes do poder, que vieram arbitrar no caso do ovo, de uma certa forma ou de outra ainda pertenciam ao grupo, perifericamente. Mas a polícia, neste caso, representa a opressão política de antes da independência (o marido preso de Nga Bina era provavelmente um preso político). Essa ameaça concreta e externa à dinâmica do grupo é suficiente para o grupo tomar novamente consciência de si, e recuperar a união perdida. Uma artimanha de garotos salva a galinha das mãos aproveitadoras do sargento, e a tensão interna ao grupo se dissolve. O sargento vai embora, e as vizinhas que brigavam se reconciliam. A mulher mais velha do grupo, a Vavó Bebeca, oferece o ovo a Nga Bina, e Nga Zefa, feliz por ter recuperado a galinha, depois de uma breve reticência constrangida, de bom grado concorda em dar o ovo à mulher grávida.

- Posso, Zefa?

Envergonhada ainda, a mãe de Beto não queria soltar o sorriso que rebentava na cara dela. Para disfarçar, começou dizer só:

É sim, vavó! É a gravidez. Essas fomes, eu sei .. E depois o mona na barriga reclama !

A imagem da galinha voando em liberdade em direção ao sol, a presença de Nga Bina com sua imensa barriga segurando o ovo, e a própria barriga parecendo um imenso ovo, são símbolos ligados ao princípio da vida, que está direcionado para o futuro com promessas da nova sociedade que irá surgir. E a nova sociedade, para Luandino Vieira, tem potencial para nascer a partir da união do povo simples e pobre dos musseques, das mulheres negras, e da língua misturada falada verdadeiramente pelo povo.

Deize Pereira Bebiano - ( Revista Tesseract )

Referências

Hamilton, Russel G. "Preto no Branco, Branco no Preto - Contradições Lingüísticas na Novelística Angolana"

Hamilton, Russel G. (1984) Literatura africana, literatura necessária. Lisboa, Edições 70.

Luandino Vieira, José (1982) Luuanda. São Paulo, Ática.

Santilli, Maria Aparecida (1985) Africanidade. São Paulo, Ática.

 

Fragmento de LUUANDA:

 

A Raiz das Coisas

 

É assim como um cajueiro, um pau velho e bom, quando dá sombra e cajus inchados de sumo e os troncos grossos, tortos, recurvados, misturam-se, crescem uns para cima dos outros, nascem-lhes filhotes mais novos, estes fabricam uma teia de aranha em cima dos mais grossos e aí é que as folhas, largas e verdes, ficam depois colocadas, parece são moscas mexendo-se, presas, o vento é que faz. E os frutos vermelhos e amarelos são bacados de sol pendurados. As pessoas passam lá, não lhes ligam, vêem-lhes ali anos e anos, bebem o fresco da sombra, comem o maduro das frutas, os monandengues roubam as folhas a nascer para ferrar suas linhas de pescar e ninguém pensa: como começou este pau? Olhem-lhe bem, tirem as folhas todas: o pau vive. Quem sabe diz o sol dá-lhe comida por ali, mas o pau vive sem folhas. Subam nele, partam-lhe os paus novos, aqueles em vê, bons para paus de fisga, cortem-lhe mesmo todos: a árvore vive sempre com os outros grossos filhos dos troncos mais-velhos agarrados ao pai gordo e espetado na terra.
Fiquem malucos, chamem o tractor ou arranjem as catanas, cortem, serrem, partam, tirem todos os filhos grossos do tronco-pai e depois saiam embora, satisfeitos: o pau de cajus acabou, descobriram o princípio dele. Mas chove a chuva, vem o calor, e um dia de manhã, quando vocês passam no caminho do cajueiro, uns verdes pequenos e envergonhados estão a espreitar em todos os lados, em cima do bocado grosso, do tronco-pai. E se nessa hora, com a vossa raiva toda de não lhe encontrarem o princípio, vocês vêm e cortam, rasgam, derrubam, arrancam-lhe pela raiz, tiram todas as raízes, sacodem-lhes, destroem, secam, queimam-lhe mesmo e vêem tudo fugir para o ar feito mitos fumos, preto, cinzento-escuro, sinzento-rola, cinzento-sujo, branco, cor de marfim, não adiantem ficar vaidosos com a mania que partiram o fio da vida, descobriram o princípio do cajueiro... Sentem perto do fogo da fogueira ou na mesa de tábua de caixote, em frente do candeeiro; deixem cair a cabeça no balcão da quitanda, cheia do peso do vinho, ou encham o peito de sal do mar que vem no vento; pensem só uma vez, um momento, um pequeno bocado, no cajueiro. Então, em vez de continuar descer no caminho da raiz à procura do princípio, deixem o pensamento correr no fim, no fruto, que é outro princípio, e vão dar encontro aí com a castanha, ela já rasgou a pele seca e escura e as metades verdes abrem como um feijão e um pequeno pau está nascer debaixo da terra com beijos da chuva. O fio da vida não foi partido. Mais ainda: se querem outra vez voltar no fundo da terra pelo caminho da raiz, na vossa cabeça vai aparecer a castanha antiga, mãe escondida desse pau de cajus que derrubaram mas filha enterrada doutro pau. Nessa hora o trabalho tem de ser o mesmo: derrubar outro cajueiro e outro e outro... É assim o fio da vida. Mas as pessoas que lhe vivem não podem ainda fugir sempre para trás, derrubando os cajueiros todos; nem correr sempre muito já na frente, fazendo nascer mais paus de cajus. É preciso dizer um princípio que se escolhe: costuma se começar, para ser mais fácil, na raiz dos paus, na raiz das coisas, na raiz dos casos, das conversas.

Luuanda , 6ª Ed. (s/d)