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Propércio, Sextus Propertius (47 a.C. - 15 d.C.)

Propércio é nasceu no ano de 47 a.C. em Assis, Úmbria. Filho de família abastada, ficou órfão de pai quando ainda era menino, cabendo à mãe os créditos por sua boa educação. No ano de 34 a.C. mudou-se, junto com a mãe, para Roma, onde dedicou-se quase que exclusivamente a poesia, uma vez que não tinha inclinação para e vida administrativa ou a política.
Como poeta, escreveu quatro livros de Elegias. O primeiro deles a ser publicado foi Cíntia, também conhecido como Monobiblos (28 a.C.), que tem, essencialmente, uma temática amorosa. Essa obra fez tanto sucesso que lhe possibilitou o ingresso no círculo de Mecenas, do qual faziam parte Virgílio e Horácio, poetas esses que constituíram a principal influência da sua arte.
O livro quatro, publicado postumante em 16 a. C., gira em torno da descrição das lendas das fundações das cidades e a instituição dos ritos romanos. Pela riqueza estilística e hábil síntese de motivos estéticos, psicológicos e filosóficos, as elegias desse livro são consideradas o ápice do gênero na poesia romana.
Os poemas de Propércio foram largamente traduzidos durante o Renascimento, chegando a inspirar O Romântico Goethe em suas Römische Elegien (Elegias romanas). Apesar de sua linguagem vaga e obscura, poucos autores romanos são comparados a ele pelo seu poder de imaginação, força e calor erótico, cabendo, por isso, a POropércio o título de maior representante da poesia elegíaca latina.

Fonte: http://www.mundocultural.com.br/index.asp?url=http://www.mundocultural.com.br/literatura1/latina/propercio.htm


 

PROPÉRCIO E A ELEGIA I, 9

Mariza Mencalha de Souza

 

Resumo

A elegia floresceu em Roma no século de Augusto e teve em Tibulo, Propércio e Ovídio os mais ilustres representantes do lirismo amoroso. A Elegia I, 9 reflete essa faceta da obra de arte de Propércio, que, além de imortalizar, em seus poemas de amor, sua musa Cíntia, celebrou também as glórias do Império Romano sob o reinado de Otaviano.

Palavras-chave: Propércio, elegia, amor, Pôntico.

 

INTRODUÇÃO

Propércio é um nome que ficou ligado para sempre à elegia latina. Como Ovídio e Tibulo, dois outros expoentes do gênero, soube com muita arte imprimir ao verso elegíaco a marca do seu talento, cantando, sobretudo, o amor por Cíntia, sua grande musa inspiradora. Além do amor, que aliou muitas vezes à mitologia, exaltou também a grandeza de Roma, consolidada, depois de Júlio César, com as novas conquistas e vitórias do imperador Augusto Otaviano.

 

A ELEGIA

A elegia, na Grécia, estava associada a uma forma métrica, o dístico elegíaco, composto de um hexâmetro e de um pentâmetro. Servia este metro para expressar os mais diversos estados d’alma e era usado nos cantos fúnebres, exaltação da pátria, epigramas, epitáfios, sátiras e em outras formas de expressão poética. Em Roma, a elegia adquiriu estatuto de gênero literário, com Tibulo, Propércio e Ovídio, que empregaram o metro grego para cantar, sobretudo, o amor. Para maiores detalhes sobre o assunto, consultar o nosso artigo “A arte de amar na Elegia I, 4 de Tibulo”, publicado na revista Principia, nº 10, do Instituto de Letras-UERJ, 2003.

 

VIDA E OBRA

Propércio (Sextus Propertius), poeta elegíaco que viveu no século de Augusto, nasceu na Úmbria, talvez na cidade de Assis, por volta de 47 ou 46 a. C., e morreu em torno de 14 a. C. Pertencia a uma família de proprietários arruinados, cujas terras foram confiscadas e repartidas entre os veteranos da guerra de Filipos, ocorrida em 41 a. C. Foi também vítima de outro infortúnio: a guerra de Perúsia, que destruiu completamente sua pátria, semeando em sua família o luto e a tristeza. As amarguras deixadas por esse funesto episódio se refletirão também em sua poesia.

Após esse acontecimento, ainda jovem, já órfão de pai, iniciou-se na carreira da advocacia e, por conseqüência, nos exercícios da oratória. Todavia, a pobreza a que ficou reduzido e, certamente, sua veia poética, não lhe permitiram continuar com os estudos forenses, tendo, por isso, enveredado pelo caminho da poesia.

Na Roma dos Césares, conheceu seu primeiro amor, uma escrava de nome Licínia. Mas seu romance com ela foi passageiro, durando apenas alguns meses. Licínia não foi totalmente esquecida, sendo lembrada pelo poeta na elegia III, 15. Entretanto, só dois anos mais tarde, é que Propércio viria a conhecer a mulher que seria a verdadeira paixão de sua vida, Cíntia.

Cíntia, Hóstia para Apuleio, pertencia à alta aristocracia. Era uma mulher casada, de vida livre, mas não uma cortesã. Encantadora bailarina, também conhecia música e poesia. Dona de uma rara beleza, Cíntia teve muitos amantes, dentre os quais, Propércio.

Após haver conhecido Cíntia, com quem viveu durante cinco anos um grande amor, Propércio publicará, por volta de 28 ou 29 a. C., seu primeiro livro de elegias, o Monobiblos ou Livro de Cíntia, dedicado inteiramente à sua musa. Nele, o poeta canta o amor como um sentimento puro e sincero. Com sua publicação, tornou-se célebre, sendo imediatamente reconhecido e acolhido por Mecenas e Augusto. Não seria isso uma compensação para o poeta, cujos pais haviam sido despojados dos bens durante sua infância?

Após a consagração de seu nome, escreveu mais três livros de elegias. No segundo, tal como no primeiro, também predomina a temática amorosa, e Cíntia continua sendo a figura central de seus versos. Em ambos, são freqüentes as referências mitológicas. Não constituem elas apenas um traço da erudição de Propércio, mas servem, sobretudo, de exempla para respaldar o sentimento amoroso. Na elegia I, 20, por exemplo, o poeta recorre ao mito para fundamentar, com a experiência amorosa vivenciada pelo formoso Hylas, as advertências dirigidas ao amigo Galo.

Devido a esse uso excessivo dos mitos, Propércio tem sido alvo de inúmeras críticas. A esse respeito, Marmorale (s/d:250), que não lhe poupa farpas, assim se expressa: “E é deveras lamentável que em todas as ocasiões exorbite com os seus mitos raros, porque deste modo se perde a sua profundidade, o seu sofrimento doloroso.

Uma voz, no entanto, se levanta em defesa do cantor de Cíntia. Trata-se do pesquisador francês D. Paganelli (1929:X), tradutor e editor crítico da obra de Propércio. Eis suas palavras:

Que si l’on invoque contre lui les développements et les digressions d’ordre mythologique, sa défense est aisée.(...) la mythologie à Rome, dans la poésie savante des Alexandrins, est plus qu’un accessoire; c’est une nécessité; c’est une face du double aspect que revêt le lyrisme et particulièrement l’expression de l’amour; c’est une manière, la manière d’ennoblir la passion de l’amour, de lui donner un prestige poétique et une justification historique ou légendaire.

Além das referências mitológicas, o estilo do poeta se caracteriza também pela linguagem rebuscada, apresentando, por isso, um vocabulário bastante elevado, com um acúmulo de figuras de linguagem e uma sintaxe muitas vezes hermética e obscura.

No terceiro livro, de temática mais variada, diminui, consideravelmente, o percentual de elegias dedicadas a Cíntia. Nele, Propércio, que antes tornara Cíntia a musa inspiradora de seus primeiros versos, começa a ceder lugar também para as elegias fúnebres, bem como para as de temática nacionalista, reservando outro tanto delas para as reflexões sobre a poesia e sua arte.

Aqueles poemas nacionais, apenas esboçados no terceiro livro, acentuam-se no quarto volume, ocupando a maior parte de suas páginas. Desta vez, já separado de Cíntia, Propércio imprime um novo tom à sua lira, resolvendo também celebrar a pátria, suas lendas, seus heróis, suas virtudes. Revela-se aí um verdadeiro Calímaco, deixando entrever as influências recebidas do poeta alexandrino. No entanto, não oculta o sentimento de romanidade, a inspiração religiosa e nacional com que canta a pátria. A esse respeito, são oportunas as seguintes palavras de Marmorale ([s/d]: 250):

Propércio quis compor um livro de elegias, o quarto, quase todo dedicado à glorificação de Roma. Aqui Propércio revela, mais que nos outros livros, a sua paixão pelos modelos alexandrinos, mas salva as elegias um profundo sentido de romanidade e o amor quase religioso pela capital do mundo.

Todavia, Cíntia, que parecia ter se apagado completamente da memória de Propércio, volta, após sua morte, a ser celebrada na sétima elegia desse quarto livro. O amor agora é revivido pelo poeta apenas como recordação.

ELEGIA I, 9

Dicebam tibi uenturos, irrisor, amores
nec tibi perpetuo libera uerba fore:
ecce iaces supplexque uenis ad iura puellae
et tibi nunc quaeuis imperat empta modo.
Non me Chaoniae uincant in amore columbae        5
dicere quos iuuenes quaeque puella domet;
me dolor et lacrimae merito fecere peritum;
atque utinam posito dicar amore rudis!
Quid tibi nunc misero prodest graue dicere carmen
aut Amphioniae moenia flere lyrae?                      10
Plus in amore ualet Mimnermi uersus Homero:
carmina mansuetus lenia quaerit Amor.
I, quaeso, et tristis istos compone libellos
et cane quod quaeuis nosse puella uelit.
Quid si non esset facilis tibi copia? nunc tu             15
insanus medio flumine quaeris aquam.
Necdum etiam palles uero nec tangeris igni:
haec est uenturi prima fauilla mali.
Tum magis Armenias cupies accedere tigris
et magis infernae uincula nosse rotae                     20
quam pueri totiens arcum sentire medullis
et nihil iratae posse negare tuae.
Nullus Amor cuiquam facilis ita praebuit alas
ut non alterna presserit ille manu.
Nec te decipiat quod sit satis illa parata                  25
acrius illa subit, Pontice, si qua tua est;
quippe ubi non liceat uacuos seducere ocellos
nec uigilare alio nomine cedat Amor,
qui non ante patet, donec manus attigit ossa.
Quisquis es, assiduas a! fuge blanditias                     30
illis et silices et possint cedere quercus,
nedum tu possis, spiritus iste leuis.
Quare, si pudor est, quam primum errata fatere:
dicere quo pereas saepe in amore leuat.


 

TRADUÇÃO[1]

Eu te dizia, ó zombador, que o amor havia de chegar, que tu não haverias de falar para sempre livremente: eis que jazes abandonado e suplicante te arrastas para as leis de uma mulher, e agora a ti dá ordens (uma mulher) qualquer, recentemente comprada.

Nem as pombas da Caônia me superariam no amor, em predizer quais jovens cada moça dominará. Com razão, o sofrimento e as lágrimas me tornaram experiente; e oxalá seja eu, após ter abandonado um amor, chamado de inexperiente!

De que vale a ti, agora infeliz, recitar um grande poema ou lamentar as muralhas (construídas ao som) da lira de Anfião? Mais vale no amor um verso de Mimnermo do que um de Homero: um Amor doce procura versos amenos.

Vai, peço-te, e abandona esses tristes poemas e canta (aquilo) que qualquer donzela gosta de ouvir. Por que não, se tu terias talento de sobra? Agora, insensato, tu procuras água no meio de um rio.

De fato, tu ainda não estás pálido, nem também foste tocado pelo fogo da paixão: esta é a primeira centelha do mal que há de vir. Então desejarás mais se aproximar dos tigres da Armênia e conhecer mais os grilhões da roda do inferno do que sentir tantas vezes em (teu) coração o arco do jovem (Cupido), e nada poder negar à tua (amada) enfurecida.

Nenhum Amor deu liberdade a alguém assim tão facilmente sem que, por outro lado, não (o) tenha oprimido. Que ela, ainda que seja bastante fácil, não te iluda: ó Pôntico, mais profundamente ela penetra (no coração), se de algum modo te pertence. Desde então não se pode desviar (dela) os olhos, (nem mantê-los) tranqüilos, nem o Amor que não se manifesta antes (e) enquanto (sua) mão (não) atinge (nossas) entranhas, (nos) permite ficar acordado com outro nome.

Ah! Quem quer que tu sejas, foge das freqüentes carícias; a elas, nem as rochas, nem os carvalhos poderiam resistir; tu, essa alma frágil, poderias menos ainda.

Portanto, se tens vergonha, reconhece o quanto antes (teus) erros: confessar porque te consomes freqüentemente no amor, alivia (a dor).

 

ANÁLISE

Percebemos que o núcleo temático desta elegia, marcada pela freqüência da palavra amor e por outros vocábulos a ela relacionados, tais como igni (v. 17) e blanditias (v. 30), gira em torno do amor, tema explorado exaustivamente pelos poetas elegíacos.

O emprego do vocativo Pontice (v. 26) denuncia que Propércio não se dirige como de praxe à sua musa Cíntia, mas ao amigo Pôntico, a quem censura por compor carmes épicos (graue carmen – v. 9). Contudo, é a experiência amorosa vivenciada com Cíntia, a verdadeira paixão de Propércio, que servirá de fio condutor para o diálogo entre o poeta e Pôntico.

Ao ler os poemas de Propércio, observamos que este procedimento, por parte do poeta, de se endereçar a um amigo para tratar de assuntos de amor, ocorre com uma certa freqüência nas elegias do livro I, tais como nas de número 4, 5 e 6, dirigidas, respectivamente, aos amigos Basso, Galo e Túlio. Já na elegia I, 7 (v. 1 a 6), Propércio se dirige também a Pôntico para falar de amor, referindo-se, inclusive, à inclinação do amigo para o canto de poemas bélicos:

Dum tibi Cadmeae dicuntur, Pontice, Thebae
armaque fraternae tristia militiae,
atque, ita sim felix, primo contendis Homero
(sint modo fata tuis mollia carminibus),
nos, ut consuemus, nostros agitamus amores,
atque aliquid duram quaerimus in dominam.
Enquanto, ó Pôntico, tu celebras Tebas de Cadmo
e as terríveis armas da milícia do irmão,
e competes com o distinto Homero, assim seja eu feliz,
(contanto que o destino seja favorável a teus versos),
eu, como me habituei, ocupo-me com meus amores,
e procuro algo contra uma cruel amante.

Nesta elegia, o poeta fala com a voz de um homem experiente, marcado profundamente pelas dores e sofrimentos do amor, como ele próprio confessa no verso 7. É essa experiência dolorosa que lhe permitirá, portanto, dirigir-se ao amigo Pôntico, em tom de freqüente advertência. O emprego do imperfeito do indicativo dicebam (v. 1), revela, contudo, que o poeta vem advertindo o amigo sobre os males do amor desde o passado e continua no presente, como o comprovam as formas de imperativo fuge (v. 30) e fatere (v. 33).

É também em nome dessa amarga experiência que o poeta assume o papel de um verdadeiro profeta do amor (v. 5-6). Com essa atitude, ele arroga a si mesmo o direito de fazer previsões, como notamos claramente no conteúdo dos versos 1, 2, 18 e 19, marcados todos por formas verbais de futuro. Mas é, sobretudo, nos versos 5 e 6 que essa nota profética mais se acentua, quando o poeta-vate, para mostrar-se superior às pombas da Caônia nas predições que faz acerca do amor, emprega dois verbos de ação projetada para o futuro: o subjuntivo potencial uincant e domet. A passagem alusiva à região da Caônia representa aqui um primeiro indício da erudição de Propércio, mostrando que o mesmo conhece não apenas sua fauna (columbae – v. 5), mas também sua flora, pois como descreve Spalding (1965:49), esse lugar era uma

...região ao nordeste do Epiro, na Grécia, assim chamada por causa de Cáon. Essa região, cheia de montanhas e florestas, era célebre pelas glandes de que se alimentavam os homens, antes da invenção do pão. Igualmente célebres eram suas pombas, que prediziam o futuro.

Por outro lado, quando Propércio se refere às pombas profetizas da Caônia, com ar de superioridade, o faz para ratificar sua experiência amorosa.

Com a mudança do tempo verbal, de passado para presente, ocorrida entre o primeiro, terceiro e quarto versos, este último modificado, inclusive, pelo advérbio nunc, Propércio acaba por ver concretizadas suas previsões feitas no passado (dicebam – v. 1), passando a descrever, desse modo, uma relação amorosa na qual o amigo Pôntico se apresenta perante a amada na condição de submisso. Lembremos, contudo, que nessa relação amorosa, os papéis do amante e da mulher amada se invertem, passando esta de escrava (empta – v. 4) a senhora, e aquele, de senhor a escravo, idéia retratada nos terceiro e quarto versos. Essa relação amorosa de submissão do amante à mulher amada, que se reflete, por um lado, no emprego do verbo iaces e do adjetivo supplex (v. 3), e, por outro, nas formas verbais uenis e imperat (v. 3-4), vai mais tarde impregnar o amor vivenciado pelos poetas da Idade Média e do Renascimento. Assim foi com Propércio, assim será com Petrarca e Camões, que, ao contrário do autor latino, exaltaram a figura da mulher amada no nível de um amor platônico.

Retomando a questão da experiência amorosa, podemos afirmar que no oitavo verso, a começar pelo tom da exclamação, Propércio se revela um tanto arrependido por ter conhecido um dia um amor que lhe trouxe tantos dissabores, preferindo antes não tê-lo vivenciado. Esse arrependimento, que se reflete no desejo manifestado pelo poeta de ser chamado de inexperiente (utinam dicar rudis!), torna-se mais evidente quando Propércio, para mostrar sua decepção com a experiência amorosa vivida com Cíntia, opõe o rudis final ao peritum do verso anterior, não sem razão posto na mesma posição do adjetivo que lhe serve de antítese.

No verso 9, o poeta se dirige a Pôntico empregando o adjetivo misero, em dativo, que, aliado ao verbo flere (v. 10), ressalta o estado de infelicidade em que se encontra seu amigo. Percebemos que nesse momento Propércio chama o amigo à razão, como que despertando-o de uma profunda letargia, daí o emprego de uma interrogação retórica, que, acrescida da lição ministrada nos versos 11-12, busca mais convencer do que propriamente indagar.

Ainda nos versos 10 e 11, notamos duas referências centradas no universo da cultura grega. A primeira, no campo mitológico, diz respeito ao episódio de Anfião; e a segunda, no âmbito da literatura, relaciona-se ao nome de Mimnermo e Homero. Ambas confirmam, mais uma vez, a erudição de Propércio, ou seja, o conhecimento do poeta acerca do mundo e da civilização dos Helenos.

Vamos, então, agora, antes de passarmos à análise do verso seguinte, tentar esclarecer, à luz da mitologia, o episódio de Anfião. Anfião era, segundo Bulfinch (1965:163),

...filho de Júpiter e Antíope, rainha de Tebas. Com seu irmão gêmeo Zétus, foi exposto ao nascer no Monte Citéron, onde os dois cresceram entre os pastores, sem conhecer os pais. Mercúrio ofereceu uma lira a Anfíon e ensinou-lhe a tocar, enquanto seu irmão ocupava-se em caçar e pastorear os rebanhos. Durante esse tempo, Antíope, a mãe dos gêmeos, que fora tratada com grande crueldade por Lícus, o rei usurpador de Tebas, e por sua esposa Dirce, conseguiu, afinal, informar os filhos de seus direitos e pedir-lhes ajuda. Com um bando dos pastores seus companheiros, os gêmeos atacaram e mataram Lícus e amarraram Dirce pelos cabelos à cabeça de um touro, deixando que o animal a arrastasse até matá-la. Anfíon tendo-se tornado rei de Tebas, fortificou a cidade com uma muralha. Dizia-se que, quando tocava sua lira, as pedras se moviam por si mesmas e iam tomar seu lugar na muralha.

Na descrição do mito, Anfião, à semelhança de Orfeu, possui o poder de encantar, com a doce melodia de sua lira, até mesmo seres inanimados. Propércio, quando alude a esse mito, o faz para mostrar a Pôntico que nem mesmo as muralhas erigidas por Anfião se comoveriam com seus tristes cantos.

A afirmativa expressa no verso 11, através do emprego do verbo ualet, modificado pelo advérbio de intensidade plus, demonstra que Propércio atribui maior valor às pequenas composições de temática amorosa. Para o poeta, os versos de amor, por sua natureza amena (carmina lenia – v. 12), agradam mais às donzelas do que os poemas bélicos, daí empregar, num gesto de polidez (quaeso), os imperativos i, compone (v. 13), opondo este último ao imperativo cane (v. 14), para convencer o amigo Pôntico a desistir dos versos tristes (tristis libellos – v. 13) e induzi-lo a cantar o que as moças gostam de ouvir (v. 14).

A partir da análise dos versos 12 e 13, feita no parágrafo anterior, percebemos que Propércio emprega a antítese lenia/tristis para estabelecer, respectivamente, uma distinção entre poesia amorosa e poesia bélica, associando o primeiro tipo de composição ao nome de Mimnermo e o segundo, ao de Homero.

Homero, como sabemos, compôs a Ilíada e a Odisséia, obras de assunto bélico. Mimnermo, ao contrário, pôs seu talento poético a serviço das elegias de amor. A comparação no verso 11, estabelecida entre seu nome e o de Homero (no abl. de comparação), revela a preferência de Propércio pelo poeta elegíaco, portanto, pelos carmes de amor. Aliás, esta inclinação pelos poemas de temática amorosa não é exclusiva de Propércio. Tibulo, igualmente, repudia os temas bélicos, preferindo tanger sua lira naqueles de amor, como confessa na seguinte passagem da elegia I, 1, v. 53-55:

Te bellare decet terra, Messalla, marique,
ut domus hostiles praeferat exuuias:
me retinent uinctum formosae uincla puellae.
A ti, ó Messala, convém guerrear, na terra e no mar,
para que a tua casa ostente os despojos inimigos:
a mim retêm, cativo, os vínculos de uma formosa mulher.

Guillemin (1939: 285) exprime essa atitude antibélica dos autores elegíacos latinos nos seguintes termos: “maudite soit la guerre et bien venue soit la paix avec toutes les bonnes choses qu’elle apporte. Son premier présent est l’amour”.

E, novamente, no verso 15, com o emprego da interrogação retórica, Propércio, consciente da capacidade de Pôntico, encoraja-o a cantar versos de amor, mostrando que somente sua insensatez, expressa pelo adjetivo insanus, não lhe permite enxergar seu próprio talento poético, idéia retratada no verso 16.

Numa atitude paradoxal, pois há pouco surpreendíamos o poeta aconselhando o amigo Pôntico a cantar versos de amor, agora, nos dísticos seguintes, Propércio, já profundamente amargurado, apresenta uma visão negativa desse sentimento, marcada, de um lado, pelo emprego do substantivo mali (v. 18), e, de outro, pela descrição de um estado físico de decadência (palles – v. 17), visto como conseqüência da paixão amorosa (igni – v. 17). Essa visão pessimista do amor acentua-se mais ainda pelo tom profético e negativo, conferido ao verso 18, no qual o mal previsto para o futuro, uenturi mali, é associado àqueles descritos no verso 17.

A partir dessa visão negativa, o poeta julga qualquer outra experiência menos dolorosa do que aquela vivenciada no amor. Esta idéia se encontra sintetizada nos versos 19 a 22, nos quais ele afirma, mediante a comparação magis ... quam, ser preferível experimentar o doloroso tormento do inferno e os perigosos tigres da Armênia a suportar as intensas torturas causadas pelo amor. Temos, então, no verso 19, outra referência à fauna. Dessa vez, relacionada aos tigres da Armênia, enfatizando não só o conhecimento de Propércio desta região, localizada na Ásia Ocidental, mas também dos animais ferozes que nela habitam.

No verso 21, Propércio alude, empregando a metonímia pueri, à figura de Cupido, deus do Amor, que, segundo a descrição de Harvey (1987:146), representa, na religião romana,

...o deus-menino do amor, filho de Vênus, uma adaptação do grego Eros, pouco importante no Panteão romano. Na literatura sua aparição mais notável é no primeiro canto da “Eneida”, onde Vênus lhe dá ordens para disfarçar-se em Ascânio e provocar o amor de Dido por Enéias.

Na mitologia grega, Eros, como afirma Spalding (1965:90), é concebido como

...o filho de Afrodite, com o carcaz bem fornido de setas, é um encantador menino alado, de cabelos encaracolados, risonho e trêfego, cujas travessuras nem sempre são inocentes. Toda vez que despede uma seta com seu infalível arco, o amor se implanta no coração e aí reina como tirano. Quando liga numa escolha feliz os corações de um homem e uma mulher, tudo vai bem; não raro, porém, seus caprichos dirigem-se a objetivos já comprometidos, e o final, sempre, é uma tragédia. Assim foi com Dido, assim foi com Pasífae, com Ariadne, com Fedra, com Medéia, com Hipodâmia.

Notamos que, no plano mítico, Cupido, o Eros grego, na maioria das vezes, interfere no coração dos amantes, para semear o sofrimento amoroso. No plano real, Propércio ratifica a tirania do deus do Amor, mostrando as freqüentes torturas (v. 21) e as fúrias (irata v. 22) que o amante tem de suportar da mulher amada, quando submisso aos seus caprichos.

Nos versos 23-24, o poeta sintetiza, numa frase de tom universal, os aspectos contraditórios do amor, que poderiam enfeixar-se em pares opositivos, tais como: liberdade/prisão, alegria/tristeza, fidelidade/infidelidade, harmonia/desarmonia, ódio/amor, dentre outros. Com relação às antíteses inerentes ao amor, sobretudo ao amor-paixão, merece destaque o carmen 85 de Catulo, no qual o antológico verso odi et amo ressalta uma das contradições próprias desse sentimento. Na elegia properciana, essa contradição do sentimento amoroso se expressa, no plano lexical, pelo contraste entre os verbos praebuit (v. 23) e presserit (v. 24) e, no sintático, pela oração introduzida pela conjunção consecutiva ut non, que figura como contrapartida em relação ao fato descrito na principal.

Na condição de amante experiente, Propércio assume o papel de um verdadeiro analista da alma feminina, trazendo à tona, no verso 25, a questão do ser/parecer. Por isso, através do emprego do subjuntivo jussivo decipiat, volta a advertir o amigo Pôntico para que não se deixe iludir com falsas aparências. Alerta-o ainda para o poder de sedução da mulher amada, a qual, segundo o poeta, vai tomando conta do coração do amante, sem que ele perceba (v. 26). Essa idéia é retratada de forma mais intensificada pela antecipação da apódose acrius illa subit e pelo advérbio de intensidade que a introduz.

Mais adiante, como conseqüência do seu poder de dominação e de aprisionamento, Propércio apresenta o amor como motivo de inquietação. Esta idéia é transmitida, de um lado, pela constante vigilância do amante (v. 27) e, de outro, pelo desassossego provocado pela imagem da mulher amada, que passa a dominar completamente o pensamento do homem enamorado (v. 28).

No verso 29, Propércio mostra que o verdadeiro amor só se manifesta depois de haver dominado completamente o homem, ou seja, non ante donec manus attigit ossa. Podemos confirmar esse ponto de vista do poeta, tomando por base a litote non ante patet, empregada pelo mesmo para abrandar uma afirmação que se nega pelo seu oposto.

Propércio encerra seu canto elegíaco mostrando que tudo é frágil diante do amor (v. 31-32), daí, numa personificação hiperbólica, colocar este sentimento não só acima das forças humanas, mas, sobretudo, acima da própria força da natureza. Nesta, como registra o poeta, com o emprego do subjuntivo potencial possint, formando locução verbal com cedere (v. 31), até mesmo os seres mais resistentes, como silices e quercus, acabariam por sucumbir ao poder irresistível do amor.

É essa fragilidade, atribuída a Pôntico através do epíteto spiritus leuis (v. 32), que impossibilita o homem de reagir diante das flechas de Cupido. Consciente dessa dura realidade, que também experimentou, Propércio, numa derradeira advertência, emprega os imperativos fuge (v. 30) e fatere (v. 33), visando a libertar de vez o amigo das garras do amor.

Por fim, criticando os atos de Pôntico e levando-o a admitir seus erros (v. 33), Propércio tenta, por todos os meios, convencer o amigo de que o desabafo é a melhor forma de amenizar a dor resultante do sofrimento amoroso (v. 34).

Somente a experiência dolorosa do amor, confessada abertamente pelo poeta, no verso 7, pode lhe permitir incursões pelo universo da mitologia, dando voz a uma pessoa que se desabafa, ora advertindo, ora vaticinando, ora apregoando as agruras do amor.

 

CONCLUSÃO

A Elegia I, 9 tem como principal fio condutor a experiência amorosa de Propércio vivenciada com Cíntia. É um poema-catarse, fruto de uma grande paixão, elaborado por Propércio para dar vazão às suas decepções e desilusões amorosas. Está centrado em um tu, com quem um eu, experiente em matéria de amor, dialoga e se desabafa, mostrando os males a que se submete um amante quando dominado por Cupido. Não apresenta nenhuma nota de otimismo. Ao contrário, o amor é retratado pelo poeta de forma negativa e descrito como um mal que perturba e tira o sossego do amante.

É o canto de uma pessoa desiludida, que só pôs na balança o lado ruim do amor, esquecendo-se dos momentos felizes que muitas vezes ele proporciona. É verdade que a mulher amada, usando, às vezes, certos artifícios, faz o homem sofrer, mas ela é também fonte de alegria e de prazer.

O poeta não dedica nenhuma linha exaltando o lado bom do amor, nem as qualidades da mulher amada. Não há no seu canto uma autocrítica, nem uma avaliação de seus atos. Terá sido deliberação ou simplesmente descrença no amor? Não teria também o cantor de Cíntia uma parcela de culpa pela dor que carrega?

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia. Trad. David Jardim Jr. Rio de Janeiro: Ediouro, 1965.

FARIA, Ernesto. Dicionário escolar latino-português. 4a ed. Rio de Janeiro: MEC, 1967.

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GRIMAL, Pierre. Le lyrisme à Rome. Paris: PUF, 1978.

GUILLEMIN, A. “Sur les origines de l’élégie latine”. In: Revue des études latines. Paris: Les Belles Lettres, 1939.

HARVEY, Paul. Dicionário Oxford de literatura clássica grega e latina. Trad. Mário G. Kury. Rio de Janeiro: Zahar, 1987.

MARMORALE, Enzo V. História da literatura latina. Trad. João Bartolomeu Jr. Lisboa: Estúdios Cor, s/d.

PROPERCE. Élégies. Trad., estabel. do texto D. Paganelli. Paris: Les Belles Lettres, 1929.

SARAIVA, F.R. dos Santos. Novíssimo dicionário latino-português. 10a ed. Rio de Janeiro/ Belo Horizonte: Garnier, 1993.

SPALDING, Tassilo O. Dicionário de mitologia greco-latina. Belo Horizonte: Itatiaia, 1965.

TORRINHA, Francisco. Dicionário latino-português. 2a ed. Porto: Porto Ed., 1942.
 


 


[1] Em nossa tradução, levamos em conta não só a sintaxe latina, mas também o espírito do texto, procurando sempre o melhor sentido para as palavras e construções latinas.

Fonte: http://www.filologia.org.br/revista/34/12.htm


 

Propércio, I.2

 
Quid iuvat ornato procedere, vita, capillo
et tenuis Coa veste movere sinus,
aut quid Orontea crines perfundere murra,
teque peregrinis vendere muneribus,
naturaeque decus mercato perdere cultu,
nec sinere in propriis membra nitere bonis?
crede mihi, non ulla tuaest medicina figurae:
nudus Amor formam non amat artificem.
aspice quos summittat humus non fossa colores,
ut veniant hederae sponte sua melius,
surgat et in solis formosior arbutus antris,
et sciat indocilis currere lympha vias.
litora nativis praefulgent picta lapillis,
et volucres nulla dulcius arte canunt.
non sic Leucippis succendit Castora Phoebe,
Pollucem cultu non Helaira soror;
non, Idae et cupido quondam discordia Phoebo,
Eueni patriis filia litoribus;
nec Phrygium falso traxit candore maritum
avecta externis Hippodamia rotis:
sed facies aderat nullis obnoxia gemmis,
qualis Apelleis est color in tabulis.
non illis studium fuco conquirere amantes:
illis ampla satis forma pudicitia.
non ego nunc vereor ne sis tibi vilior istis:
uni si qua placet, culta puella sat est;
cum tibi praesertim Phoebus sua carmina donet
Aoniamque libens Calliopea lyram,
unica nec desit iucundis gratia verbis,
omnia quaeque Venus, quaeque Minerva probat.
his tu semper eris nostrae gratissima vitae,
taedia dum miserae sint tibi luxuriae.



Por que tens tanto prazer, vida minha, em andar com os cabelos enfeitados,
em fazer ondular as leves pregas do teu traje, de tecido de Cós?
Por que tens tanto prazer em inundar os cabelos com mirra de Orontes
e vender-te por presentes estrangeiros?
Por que tens tanto prazer em trocar tua beleza natural por um luxo comprado
e em não permitir que teus membros brilhem com seus próprios dotes?
Crê-me: nenhum cosmético é necessário ao teu semblante;
o Amor é nu e não ama os artifícios da beleza.
Observa as cores formosas que a terra produz
para que as heras, espontaneamente, cresçam mais belas;
para que, nas grutas abandonadas, o medronheiro surja mais formoso
e as águas indóceis saibam percorrer o seu caminho.
As praias atraem, matizadas com seixos nativos,
e os pássaros, sem aprender,cantam com doçura maior.
Não foi assim que Febe, a filha de Leucipo, inflamou o coração de Cástor;
não foi pela beleza cultivada que Hilaíra, sua irmã, inflamou o de Pólux;
não foi assim que a filha de Eveno, na praia de seu país,
foi motivo de discórdia para Idas e o cúpido Febo;
não foi com a falsa brancura de uma tez pintada que Hipodâmia,
raptada por um carro estrangeiro, conquistou um esposo frígio:
seu rosto não devia nada às pedras preciosas;
tal é seu aspecto nos quadros de Apeles.
Nenhuma delas teve a intenção de conquistar o amante de forma vulgar;
nelas, o grande pudor já era suficiente formosura.
Não tenho receio de ser para ti menos do que todos estes.
Se uma mulher agrada um único homem, ela já é enfeitada
principalmente quando Febo te oferece seus versos
e a jovial Calíope, sua lira aônia.
Não te falta a graça de palavras belas
e tudo que Vênus e Minerva aprovam.
Serás sempre o encanto de minha existência
desde que sintas repulsas por todo esse luxo infeliz.

Tradução: Zélia de Almeida Cardoso. In: NOVAK, M.da G. & NERI,M.L.(org.) Poesia Lírica Latina. SP: Martins Fontes. 2003.

Fonte: http://primeiros-escritos.blogspot.com/2008/07/por-que-tens-tanto-prazer-vida-minha-em.html