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Satyricon - Petrónio

Por: Hugo Santos

 

Titus Petronius Niger é, por certo, o autor que hoje conhecemos como Petrónio: a generalidade dos estudiosos considera espúrio o nome Gaius, proposto por Tácito. Terá sido governador em Bitínia e, mais tarde, cônsul. Nero tê-lo-á acolhido na sua corte, como elegantiae arbiter (árbitro de elegâncias), daí a designação Arbiter por que é frequentemente conhecido. Segundo Tácito, «Os dias passava-os ele mergulhado no sono e as noites nas ocupações e prazeres da vida.» (p.20) Terá morrido no ano 66 da nossa era, acusado de conspiração e levado ao suicídio por Nero.

O Satyricon (que inspirou o filme homónimo de Fellini) chegou até nós em forma fragmentária, uma vez que se perderam vários dos livros que comporiam a totalidade da obra. Esta é a primeira tradução (havia, pelo menos, duas anteriores: a de Jorge de Sampaio, Europa-América; e a de Carlos Grifo, Editorial Presença) feita directamente a partir do latim original e esteve a cargo – em boa hora! – de Delfim Leão, docente da Universidade de Coimbra, que, entre outras obras, traduziu Aristóteles, publicou uma tradução de Sólon, acompanhada de vasto estudo, e verteu Plutarco).

Este conjunto de ‘livros das lascívias à maneira dos sátiros’ (Satyricon Libri) relata o percurso de Encólpio, narrador na primeira pessoa, e o seu companheiro e amante, Ascilto, a quem se junta o jovem Gíton. As duas personagens principais simbolizam, de certa forma, a juventude literata e algo diletante do tempo de Nero – «E que mais podia fazer, meu grande parvalhão, se já estava a morrer de fome? Ficar a ouvir grandes sentenças, que é como quem diz o tilintar dos copos e interpretação dos sonhos?» (p.36) O seu desregramento irónico assoma na escrita, fortemente realista, que confere ao Satyricon uma frescura e uma actualidade impressionantes.

Central na narrativa – entrecortada pelo estilo rápido e pela fluidez da narração e ainda pelas lacunas no texto – é o chamado «Banquete de Trimalquião», tão célebre que, por vezes, é editado em separado. Trimalquião, escravo liberto, é o típico novo-rico, desejoso de ostentar e ofuscar com a sua recente riqueza. Juntamente com a mulher, Fortunata, compõe um quadro em que se evidenciam os dotes críticos e jocosos do autor – «Portanto, comprei agora ao miúdo alguns alfarrábios avermelhados, pois quero que ele prove umas lascas de direito para uso da casa. É uma coisa que dá pão. De letras já está infestado que chegue.» (p.82) Juntamente com o poeta Eumolpo, Encólpio e Ascilto navegam para o Sul de Itália, em Crotona. Num trecho particularmente curioso, o poeta expõe a sua visão sobre a poesia épica, num longo poema (situação recorrente ao longo da obra, a interpolação de composições poéticas) que intercala com a ficção e em que o vate narra a queda de Tróia e a Guerra Civil. Os viajantes acabam por naufragar. Na sequência desse percalço, seguem-se diversas peripécias de carácter amoroso, eivadas de realismo, mas também de subtis descrições ardorosas – «Quem impede ao corpo de inflamar-se na tepidez de um leito?» (p.225). O fim da obra encerra ainda uma reviravolta diegética curiosa: Encólpio, que sempre alardeara proezas sexuais, é acometido por uma impotência que apenas Mercúrio consegue resolver. Eumolpo, por seu turno, na sequência de uma farsa em que se fizera passar por rico proprietário, lavra o seu testamento, com momentos de invulgar intensidade e de um poder imagético notáveis – «Todos os que são contemplados no meu testamento, à excepção dos meus libertos [na verdade, inexistentes…], só entrarão na posse dos bens que lhes leguei com esta condição: cortarem em pedaços o meu corpo e, na presença do povo, o devorarem...» (p.241)

Em Satyricon cabem a peripécia; os giros da linguagem, do registo popular – «– Mas eu já te servi… rapaz, e tu foste o único a emborcar o remédio todo?!» (p.48) – até aos píncaros da reflexão – «É semelhante a maneira como a fúria toma assento nos corações: agarra-se aos espíritos agrestes, mas escorre pelas mentes instruídas.» (p.162) «Se deitarmos bem contas à vida, por todo o lado há naufrágio!» (p.193) –; a prosa intercalada com a poesia – «Que noite aquela, deuses e deusas,/ que leito suave. Unidos no calor da paixão,/ trocámos entre um e outro, através dos lábios,/ as nossas almas errantes. Adeus cuidados/ mortais. Assim comecei eu a morrer.» (p.133) –; um documento histórico-literário de invulgar importância. Em suma, «um caso especial e único, quer pelo tema, quer pela estrutura, quer pelo estilo» (p.9).

 

Hugo Santos, 2007


Satyricon
Viagem ao "baixo"-Roma*

Ariovaldo Augusto Peterlini
 

 

Paulo Leminski está entre os tradutores que amam o perigo. Depois de Joyce, Petrônio. O Satyricon (texto latino escrito provavelmente sob Nero, por um suposto Petrônio), é um desafio que impõe audácias. E como é audacioso o artista que há em Paulo Leminski. "Entre trair Petrônio a trair os vivos", escreve ele no posfácio, "escolhi trair os dois, único modo de não trair ninguém". Leminski sabe que as traduções das obras clássicas greco-romanas ao nosso dispor trazem, de comum, ao leitor atual, de língua para língua, o escritor há centenas de anos, com sacrifício quase sempre da estrutura da língua receptora, em benefício da língua a do estilo de origem. Leitura restrita a minorias interessadas, já que supõe adaptação cultural. Mas Leminski, atendendo talvez a Henri Meschonnic (Propostas para uma Poética da Tradução), pretendeu "produzir um texto original em língua de chegada, homólogo ao texto da língua de partida".
No Satyricon, a variedade dos registros de língua corre desde a prosa culta até o vulgar do calão, sem falar nos trocadilhos a no raro de certo vocabulário só ali deparável. Apostando em mergulhar o leitor moderno na obra antiga, Leminski não hesita em "transcriar", em preencher e, mesmo, em reduzir, se disso necessita para trazer a seu leitor um Petrônio tão acessível a agradável quanto deve ter sido aos de sua época. "Esta não é uma tradução para especialistas. É um compromisso entre uma fidelidade essencial (o grifo é meu) ao texto latino do Satyricon às vezes até literal, e o não menos legítimo compromisso de envolver diretamente o leitor de hoje na vida de um texto dois mil anos vivo". "No caso dos poemas, mantive o sentido geral, aliviando-os, porém, do pesado lastro de alusões mitológicas que, evidentemente, só faziam sentido para um leitor da Antigüidade. Ou, hoje, para um especialista, versado em cultura greco-latina". Coerente com sua afirmação, não vacila em reduzir os 295 pesados versos originais do poema sobre a Guerra Civil a apenas sete. Mas, ao transformar os textos poéticos, visando à melhor sintenia com o leitor atual, aí então avulta sobremaneira a experiência e a arte de Leminski. Melhor, ler a sentir. Petrônio compõe uma paisagem ideal para o encontro de Encolpo a Circe: "Ondulante o plátano estendera as sombras estivais a assim também fizeram Dafne, coroada de bagas, a os trêmulos ciprestes a os pinheiros de contorno recortado na copa buliçosa. Por entre eles brincava, com águas errantes, um riacho espumoso, rolando os seixos na múrmura linfe." Leminski o "transcria", aligeirando-lhe os versos: "Lá onde o pinho e o plátano/ Entrelaçam suas ramagens,/ Lá onde o perfume das flores/ E o frescor das águas/ São os principais personagens/ Onde o cipreste ondula na brisa/ Que leva embora o canto dos pássaros..." (capítulo 126). Vezes há, porém, em que o aspecto paródico do original fica prejudicado, como, por exemplo, na passagem em que Encolpo, revoltado, interpela teatralmente o próprio membro, que se dobra teimoso na flacidez da impotência. Petrônio, valendo-se da técnica do centão, insere, aí, faceto, três versos de Vergílio, visando à paródia. Isso escapará ao leitor comum.
No trabalho de reviver o texto milenar, Leminski sabe escolher a primor a expressão moderna exata a agradável, quer, na tradução, quer nos comentários: "E um bofe, não uma mulher. Mas, enfim, quem nasce na senzala, nunca sonha com a casa-grande". (74). "A cultura 'nouveau riche' de Trimalcião é um verdadeiro 'samba do crioulo doido'." (52) Tão identificado com Petrônio me parece Leminski, que a tradução, a meu ver, só perde impulso em umas dez páginas do capítulo 11, exatamente um texto que deve ser apócrifo, pois não consta de excelentes edições modernas como, por exemplo, a da Las Belles Lettres.
Prós a contras pesados, o saldo é em extremo positivo. Tradução planejada à luz de objetivo específico e... com dedo de artista. Liberado de compromissos ferozes com os originais latinos, o tradutor ousa a "transcriação", preenchendo as lacunas do original a religando as malhas rotas do entrecho; facilita, enfim, os poemas a reduz ao mínimo a mitologia. Algumas falhas, como a ausência do capítulo 110 do original e a distração da passagem, só numérica, do capítulo 129 para o 135, poderão ser retificadas em próxima edição.
A bem da verdade, Leminski manteve todos os aspectos do Satyricon: está ali a novela erótica, a sátira menipéia, o mimo, a fábula milésia. Saem machucados, mas de leve, a crítica literária e a paródia, muito ligados que estão ao conhecimento especializado da cultura clássica antiga. Com polêmica ou sem ela, obra imprescindível a quem traduz do latim a do grego. Difícil dizer até que ponto o Satyricon de Leminski é o Satyricon de Petrônio, mas certo estou de que, se Petrônio fosse contemporâneo nosso a escrevesse, hoje, o Satyricon, escreveria provavelmente como Leminski.

 

 

Ariovaldo Augusto Peterlini

  

*OBS.: Publicado originalmente com o título "Viagem ao "baixo"-Roma", Folha de S. Paulo, 1985.

Fonte: http://paginas.terra.com.br/arte/PopBox/kamiquase/ensaio37.htm

 Resenha: A pobreza no Satyricon de Petrônio.

Livro de :  FAVERSANI, Fábio.

Resenha de:Marilena Vizentin
Mestre-História, USP

 

A reflexão sobre os Estudos Clássicos coloca-se como fundamental na construção de uma História Cultural do Ocidente; e já que o Brasil se insere dentro deste quadro, é razoável esperar que nós, brasileiros, possamos produzir algo sobre este momento do pensar em nossa própria cultura.

 

 

É aproximadamente com esta colocação que Fábio Faversani, autor da obra em epígrafe, inicia o trabalho sobre o qual nos deteremos nesta resenha. Fruto de sua dissertação de mestrado, A pobreza no Satyricon de Petrônio, lançada recentemente por uma iniciativa da Editora da Universidade Federal de Ouro Preto, representa uma contribuição de grande relevância para o avanço dos estudos sobre a Antigüidade Clássica no Brasil.

Malgrado o número bastante reduzido da tiragem (apenas 90 exemplares), acreditamos que a publicação e divulgação deste texto causará um impacto bastante positivo na comunidade científica brasileira que se dedica a este ramo da História. Além disso, trata-se de um estudo que se insere dentro de uma nova frente de trabalhos sobre História Antiga no Brasil, os quais buscam uma maior autonomia em relação à historiografia produzida na Europa e Estados Unidos, bem como uma nova abordagem de conceitos há muito cristalizados. Nesse sentido, esta nova "geração" de historiadores procura uma melhor inteligibilidade de problemas inerentes à época atual a partir do estudo de sociedades antigas, de forma a contribuir para a construção de uma identidade cultural nacional própria.

A obra de Faversani, deste modo, procura responder à seguinte questão: "(...) as posições sociais são determináveis pela posição dos agentes nas relações de poder?" Na tentativa de respondê-la, o autor dedica-se à análise de uma das obras mais polêmicas produzidas pelo mundo antigo, seja pelo seu conteúdo, seja pelo estilo único com que foi redigida: o Satyricon, de Petrônio. A partir dela, reflete sobre os livres pobres em Roma à época do Principado e sobre as relações diretas de poder engendradas por estes personagens. Sua primeira conclusão é a de que a posição dos agentes sobre os quais se detém é determinável pela sua inserção na dinâmica das relações sociais e não apenas pelo controle deste ou daquele atributo. Discute, para tanto, ao longo dos capítulos, questões que se referem diretamente à problemática da obra latina; questões de fundo mais teórico, como os conceitos de "classe" e "estamento"; e o tratamento dado pela historiografia aos livres pobres do Império romano. Ademais, utiliza-se de instrumentos analítico-conceituais próprios de forma a efetivar sua proposta inicial de trabalho.

Estruturada desta maneira, Faversani dá início à sua exposição enfocando primeiramente a obra latina sob múltiplos aspectos. Assim, propõe um resumo bastante breve e esquemático de seu conteúdo, dividindo-o em cinco partes, de modo a colocar o leitor a par da história ali narrada. A seguir, passa para os problemas, a nosso ver bastante comuns quando se trata de um texto antigo, relativos à data e autoria do mesmo. Nesse sentido, perfaz, com bastante acuidade, todo o caminho de estudos realizados com esta finalidade, ressaltando a grande importância dos próprios códices para a definição destas questões. No sentido de elucidar o nome de seu verdadeiro autor, tece uma série de argumentos que, se de início nos parecem relativamente confusos, aos poucos vão se definindo mais claramente. Identifica, pois, C. Petrônio Arbiter como o verdadeiro autor em questão.

No concernente à data em que foi escrito o Satyricon, Faversani apresenta os diferentes meios pelos quais se procurou chegar a um período aproximado, quais sejam: recursos lingüísticos, econômicos e estilísticos. A seu ver, entretanto, nenhuma das datas propostas pôde solucionar verdadeiramente o embate, o que o leva a tomar o termo hortus pompeianus como chave para a elucidação do mesmo1.

Outros pontos sobre os quais ainda tece algumas considerações referem-se aos locais em que se ambientam os episódios narrados e as condições em que foi escrita a história. Para Faversani, a definição precisa das cidades citadas no texto latino, para seu estudo, é absolutamente irrelevante; basta-lhe saber que se tratava de um ambiente urbano do centro-sul italiota, notadamente cidades de porte médio. Quanto ao contexto em que teria sido escrito, deixa alguns aspectos a desejar, pois pressupõe que o leitor esteja bastante familiarizado com o período retratado, não entrando em maiores detalhes sobre os aspectos políticos e econômicos — fundamentais pelo que se pôde depreender da análise subseqüente. Este fato, por sua vez, produz uma visão — errônea — da existência de um mundo à parte, composto apenas pelos livres pobres, como se eles não interagissem e não fizessem parte de toda uma estrutura social já estabelecida.

Finalmente, para encerrar este capítulo, Faversani esboça a trajetória da tradição textual petroniana atentando para as falsificações existentes acerca do Satyricon (o texto que nos chegou não está completo), e alertando para o uso inadequado destas falsificações, principalmente em edições brasileiras (segundo ele, todas elas dão o texto como concluído). Este item serve de mote para a introdução do estilo e das intenções petronianas. Para o autor, Petrônio, ao pintar a realidade que o cerca de forma cômica e parcial, acaba controlando o que seus leitores vêem de forma direta, daí a dificuldade, hoje, em se compreender e nomear seu estilo. Chega-se à conclusão, portanto, de que se trata de um estilo original e inédito, na medida em que faz uso de inúmeros gêneros literários já existentes. Sua exposição, mesmo que em tom popularesco, apresenta criticamente uma "realidade afastada do natural e inegavelmente em crise", daí o recurso adotado por Petrônio, qual seja, o de apontar para diferentes perspectivas na busca de outras tantas soluções.

O segundo capítulo, a seu turno, tratará dos aspectos teórico-metodológicos e dos instrumentos analítico-conceituais a serem utilizados na posterior análise da fonte, cujo foco de preocupação será apenas a pobreza construída no Satyricon. Tendo isto em vista, Faversani coloca a abordagem da historiografia com relação ao tema escolhido, centrando sua atenção em historiadores como Rostovtzeff, Catherine Salle, Paul Veyne, E. Badian e Ramsey MacMullen. Alguns deles encontram o que ele chamou, bastante a propósito, de "consoladora solução", isto é, a idéia do panem et circenses, na qual os pobres viveriam despreocupadamente à sombra das dádivas dos ricos... Os argumentos subseqüentes, em função disso, procuram recolocar a questão das condições de vida dos pobres — verdadeiramente "sofríveis" —, concluindo que a plebe não poderia sobreviver sem qualquer tipo de estratégia que lhe garantisse ao menos o sustento.

Esta constatação leva Faversani a uma discussão sobre dois conceitos hegemônicos na historiografia social: classe e estamento. Sua abordagem dar-se-ia pelo fato de constituírem elementos bastante importantes para a compreensão da posição social ocupada por Trimalchio, um dos principais personagens da narrativa petroniana e comumente o mais analisado pela historiografia. Seria Trimalchio um típico representante de uma classe ascendente, vinculada ao mercado, e concorrente ou aliada plausível da aristocracia fundiária romana ou, ao contrário, seria típico na demonstração de que os libertos não podiam constituir um grupo hegemônico ou serem admitidos naqueles já existentes, tanto por limitações jurídicas, quanto culturais? É o que Faversani procurará demonstrar por meio da análise dos dois conceitos acima referidos. Tanto um quanto o outro, infere, são ou insuficientes para a análise da sociedade romana, ou eficientes apenas para a compreensão da elite senatorial, e não em relação aos libertos. Crê, portanto, que a solução para todos os impasses apontados esteja na "(...) criação de uma categoria analítica alternativa, capaz de satisfazer as necessidades de compreensão das potencialidades ou efetiva ocorrência de ações coletivas dos agentes sociais".

Nesse sentido, Faversani vai se ocupar do que chamou de "relações diretas de poder". Retoma, para tanto, a discussão encetada a partir da década de 60 pelos historiadores ingleses (P. Gansey, R. Saller, A. Wallace-Hadrill, C. Whitaker, entre outros) e dá continuidade à mesma aumentando as possibilidades de tipos de relações diretas de poder e observando — daí sua inovação —, as redes de ordenação e controle que, em conjunto, elas estruturam. Ademais, respeita a multiplicidade qualitativa destas relações, tratando-as como tipologicamente diferenciadas, sem privilegiar um único tipo. Inclui, assim, diferentes categorias que se inter-relacionam, tais como clientes, libertos, protegidos, amigos, protetores, senhores e patronos, inferindo ser a extensão das redes entre eles muito variável e dependente da capacidade de cada agente em estabelecer ligações.

Na "difícil busca de uma idéia de pobreza", portanto, Faversani conclui este capítulo com um panorama de como os romanos da elite encaravam seus contemporâneos pobres e com uma nova abordagem das categorias utilizadas pela historiografia para classificar e definir a pobreza. Busca, a partir disso, uma melhor visualização de como os pobres se colocavam diante do universo dos ricos e de que maneira interagiam com ele. Assim, segundo o autor, existiria um grande debate a respeito da idéia de pobreza, mais do que sobre o pobre enquanto agente social em si, o que não contribuiria em muito na reconstrução dos mecanismos de produção e reprodução da vida social criados pelos pobres. Nesse sentido, aponta para as dificuldades de se delimitar conceitualmente a pobreza, passando a discutir alguns estudos que, mesmo não tendo como tema central a Antigüidade Clássica, procuraram esclarecer, ou pelo menos levar em consideração a questão da pobreza.

Em "As relações de poder no Satyricon", temos finalmente a análise dos agentes sociais presentes na narrativa de Petrônio. Em relação a isso, e visando a uma maior inteligibilidade por parte do leitor, Faversani divide o texto latino em "episódios" (mais precisamente quatro), nos quais buscará conclusões de validade mais geral para esta fonte. Estuda, para tanto, cada um deles por ordem crescente de complexidade, levando em conta sua extensão, as redes de poder minimamente independentes, o número de agentes sociais envolvidos e os dados que levam à caracterização destes. Antes de iniciar sua análise acerca destas questões, entretanto, elabora um estudo dos protagonistas do Satyricon, pois cada um deles participa de mais de um episódio e sua repetição, a seu ver, poderia se revelar enfadonha.

A partir de sua caracterização, Faversani traça as diversas estratégias de sobrevivência empreendidas por estes personagens, bem como as relações sociais encetadas pelos mesmos. Disso infere que tais estratégias teriam um caráter mais defensivo, ao mesmo tempo em que funcionavam como mecanismos de escape para as faltas cometidas ao longo de seus estratagemas. Daí as relações sociais que estabeleciam não poderem, de forma alguma, ser duradouras, visto a iminência de serem reconhecidas por outrem.

Na análise que se segue dos episódios ("de Quartilla", "Viagem a Crotona", "Farsa de Crotona" e "Cena Trimalchionis"), observa-se sempre uma breve síntese de cada um deles e uma primeira identificação dos principais personagens envolvidos no excerto em questão. Dentre eles, Faversani detém-se sobretudo no último episódio elencado, destacando a figura de Trimalchio e sua atuação perante os convivas do lauto banquete que oferece. Para tanto, apresenta "os olhares da historiografia" sobre este personagem, verificando as "tipicidades" atribuídas a ele e as diferentes concepções de sociedade romana que motivaram a criação dos "típicos Trimalchios". A seu ver, Trimalchio seria típico apenas de como as elites viam os libertos ricos e não de como eles de fato poderiam ser, de forma que uma análise mais coerente deveria levar em consideração também as suas relações sociais e não apenas os estereótipos elaborados tanto pela epigrafia produzida pelos próprios romanos, quanto pela tradição textual remanescente.

Em vista disso, sob o "prisma das relações diretas de poder", Faversani vai analisar a figura de Trimalchio ressaltando a multiplicidade de personagens que atuam na Cena Trimalchionis e seu verdadeiro papel em relação a seu anfitrião, aspectos estes que considera extremamente importantes para a construção da personalidade do mesmo. Estabelece, assim, uma tipologia, dividindo-os entre comensais (em sua maioria libertos), indivíduos mencionados pelos comensais, e servidores (pertencentes à familia trimalchionis), de maneira a reconstruir as inter-relações estabelecidas entre eles. Ao examinar cada uma destas "categorias" — que convergem, direta ou indiretamente para uma única pessoa, ou seja, Trimalchio —, estabelece, por fim, um quadro geral de relações de poder que os envolvem, cumprindo, sem dúvida alguma, os objetivos a que se propusera no início de seu trabalho.

Na busca de uma melhor compreensão da pobreza, portanto, Faversani acaba confirmando "a importância das relações diretas de poder como elemento ordenador e estruturador da sociedade romana" — ao menos daquela cuja imagem Petrônio nos permitiu vislumbrar —, por meio de instrumentos analítico-conceituais próprios que, à primeira vista, pareceram-nos absolutamente pertinentes. Talvez, como o próprio autor afirmou, estes instrumentos não tenham a mesma validade junto a períodos históricos mais abrangentes, daí a necessidade de se propor novas alternativas de análise que possam contemplar também outras questões, além da pobreza.

Ao enfocar os livres pobres do período neroniano, todavia, Faversani coloca-nos diante de questões que, malgrado os muitos séculos decorridos, ainda se revelam preocupantes. Nesse sentido, a utilização que faz de exemplos tirados de outros contextos históricos não é fortuita. Apenas revela ser a pobreza um problema latente, não só para os que a observam de longe — sejam senadores romanos ou acadêmicos —, mas sobretudo para os que dela fazem parte e que sobrevivem, ainda, graças àquelas mesmas estratégias (guardadas as devidas proporções). Procurar investir em outras "alternativas de análise", como a aqui esboçada, embora possa parecer muito pouco perante a injusta realidade brasileira, sem dúvida muito auxilia na construção de "uma visão do passado a serviço da transformação (...) de nossa sociedade". O caminho escolhido, convenhamos, não é dos mais fáceis, mas até aqui, parece-nos, andou-se bem!

 

NOTAS

 

1Segundo Faversani, só teria sentido possuir um hortus pompeianus antes de 79 d.C., ano em que Pompéia é soterrada pela erupção do Vesúvio. Deste modo, a obra só poderia ser anterior a esta data.

 

Resenha recebida em 06/2000. Aprovada em 11/2000.


SATYRICON - Fellini

 

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  • Sinopse
     
    Esta é a livre adaptação de Fellini da famosa peça de Petronius, que faz uma crônica da vida na Roma antiga. Encolpio (Martin Potter) e seu amigo Ascilto (Hiram Keller) disputam o afeto do jovem Gitone (Max Born). Quando Encolpio é rejeitado, ele começa uma jornada na qual encontra todos os tipos de pessoas e de acontecimentos, entre eles uma orgia e um desfile de prostitutas na Roma antiga. Durante a orgia, organizada por Trimalchio (Mario Romagnoli), encontra um ex-escravo que menosprezou a mulher em troca dos prazeres oferecidos por um jovem garoto.
    O filme é estruturado em uma narrativa truncada e é uma reflexão sobre a sexualidade masculina e suas variações. Cada trecho do filme trata de uma delas, como o homossexualismo, e outras questões delicadas que envolvem o sexo. Apesar de ser baseado na sociedade da Roma antiga, Satyricon reflete também um momento de caos pelo qual a sociedade da década de 60 vivia.
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  • Informações Técnicas
    Título no Brasil:  Satyricon de Fellini
    Título Original:  Fellini - Satyricon
    País de Origem:  França / Itália
    Gênero:  Drama
    Classificação etária: 16 anos
    Tempo de Duração: 138 minutos
    Ano de Lançamento:  1969
    Site Oficial: 
    Estúdio/Distrib.:  Mais Filmes
    Direção:  Federico Fellini
     
  • Elenco
    Martin Potter ... Encolpio
    Hiram Keller ... Ascilto
    Max Born ... Gitone
    Salvo Randone ... Eumolpo
    Mario Romagnoli ... Trimalcione
    Magali Noël ... Fortunata
    Capucine ... Trifena
    Alain Cuny ... Lica
    Fanfulla ... Vernacchio
    Danika La Loggia ... Scintilla
    Giuseppe Sanvitale ... Abinna
    Genius ... Liberto arricchito
    Lucia Bosé ... La matrona
    Joseph Wheeler ... Il suicida
    Hylette Adolphe ... La schiavetta
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